Para Henry Jekyll e Edward Hyde
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Este texto espera ser um conto de terror,
fruto de um sonho inconsequente.
fruto de um sonho inconsequente.
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São
Bento do Tamanduá, 22 de maio de 18--.
O breu da noite esvazia as ruas e afasta qualquer
possibilidade de uma alma perdida perambular pela cidade numa hora como essa.
Na Porcena, não há mais trabalho, as meninas se recolhem, as últimas velas são
apagadas, e os bêbados mais exaltados jazem pela calçada desacordados em sonhos
que não entendem e dos quais não se lembrarão no dia seguinte.
Pela terra batida chamada de rua, apenas o frio
vento da madrugada a buscar frinchas para uma melodia lúgubre, sinistra e apavorante.
Todos dormem.
A matriz em construção espera o sol raiar para
voltar às obras, e um relógio sonâmbulo, rebelde, insiste em quebrar o silêncio
anunciando a terceira hora da madrugada; com ela, surgem passos apressados pela
rua morta. O som abafado não deixa dúvidas de que são pés descalços, e a
fluência apertada e temerosa indica pressa.
As passadas param, e ouve-se o som de uma nervosa
aldraba. À frente da casa do recém-ordenado Pe. Belchior, um garoto de não mais
de 10 anos treme de medo e de frio, ansioso pela abertura da porta. Não há
resposta. A hora está morta. O garoto, aflito, olha para os lados repetidamente
pedindo a Deus que mantenha a rua vazia e que ninguém apareça, vivo ou morto,
naquele momento.
A aldraba nervosa soa novamente. Do lado de
dentro, o padre já está sentado na cama, com ouvidos atentos, aguardando a
confirmação daquele som, que bem poderia ter saído de seu sonho. Ao ouvir a
batida morta, levanta-se, veste-se apressadamente sobre o pijama, tateia o
criado em busca dos fósforos, acende a vela e, com o castiçal em mãos, ainda
descalço, caminha em direção à porta.
Encostado à porta, aguarda que aquela mão
insistente diga alguma palavra que justifique essa visita. Ao sentir que a
aldraba seria molestada novamente, impede rispidamente a ação.
- Quem é?
- Careço de falar com o padre. – Respondeu o
garoto entre a tremedeira dos dentes.
- A uma hora dessas?
- É caso de vida e morte.
- Por que não procura o médico?
- Ele num ia arresolvê agora mais. Tô vindo a
pedido da Rita Pemba.
Nesse momento impensável, um nome impensável. O padre
coloca o castiçal no chão, destrava a porta e vê, como um raio, o garoto entrar
e se encostar na parede com as mãos espalmadas. Fecha a porta, recolhe o
castiçal e aproxima a vela do rosto do garoto. A expressão de pavor é nítida:
os olhos esbugalhados, os lábios arroxeados e ressecados, a respiração
descompassada e a musculatura da face revelando a cerração dos dentes.
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