terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Um estranho caso - parte I

Para Henry Jekyll e Edward Hyde
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Este texto espera ser um conto de terror,
fruto de um sonho inconsequente.
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São Bento do Tamanduá, 22 de maio de 18--.

O breu da noite esvazia as ruas e afasta qualquer possibilidade de uma alma perdida perambular pela cidade numa hora como essa. Na Porcena, não há mais trabalho, as meninas se recolhem, as últimas velas são apagadas, e os bêbados mais exaltados jazem pela calçada desacordados em sonhos que não entendem e dos quais não se lembrarão no dia seguinte.
Pela terra batida chamada de rua, apenas o frio vento da madrugada a buscar frinchas para uma melodia lúgubre, sinistra e apavorante. Todos dormem.
A matriz em construção espera o sol raiar para voltar às obras, e um relógio sonâmbulo, rebelde, insiste em quebrar o silêncio anunciando a terceira hora da madrugada; com ela, surgem passos apressados pela rua morta. O som abafado não deixa dúvidas de que são pés descalços, e a fluência apertada e temerosa indica pressa.
As passadas param, e ouve-se o som de uma nervosa aldraba. À frente da casa do recém-ordenado Pe. Belchior, um garoto de não mais de 10 anos treme de medo e de frio, ansioso pela abertura da porta. Não há resposta. A hora está morta. O garoto, aflito, olha para os lados repetidamente pedindo a Deus que mantenha a rua vazia e que ninguém apareça, vivo ou morto, naquele momento.
A aldraba nervosa soa novamente. Do lado de dentro, o padre já está sentado na cama, com ouvidos atentos, aguardando a confirmação daquele som, que bem poderia ter saído de seu sonho. Ao ouvir a batida morta, levanta-se, veste-se apressadamente sobre o pijama, tateia o criado em busca dos fósforos, acende a vela e, com o castiçal em mãos, ainda descalço, caminha em direção à porta.
Encostado à porta, aguarda que aquela mão insistente diga alguma palavra que justifique essa visita. Ao sentir que a aldraba seria molestada novamente, impede rispidamente a ação.
- Quem é?
- Careço de falar com o padre. – Respondeu o garoto entre a tremedeira dos dentes.
- A uma hora dessas?
- É caso de vida e morte.
- Por que não procura o médico?
- Ele num ia arresolvê agora mais. Tô vindo a pedido da Rita Pemba.
Nesse momento impensável, um nome impensável. O padre coloca o castiçal no chão, destrava a porta e vê, como um raio, o garoto entrar e se encostar na parede com as mãos espalmadas. Fecha a porta, recolhe o castiçal e aproxima a vela do rosto do garoto. A expressão de pavor é nítida: os olhos esbugalhados, os lábios arroxeados e ressecados, a respiração descompassada e a musculatura da face revelando a cerração dos dentes.

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