sábado, 22 de maio de 2010

Santa Rita

- Belchior, busque uma rosa para enfeitar seu quarto.
- A senhora se esqueceu de que não há rosas na roseira neste momento?
- Não?
- A roseira não floresce no inverno.
- Não é que isso que diz meu olfato. Você não sente um doce aroma no ar?
Um movimento mais forte dos pulmões comprova que há algo no ar.
- Talvez seja o perfume de uma mulher...
- Belchior, busque uma rosa para enfeitar seu quarto.
- Mas...
- Belchior, se não acredita em minha palavra, confie em seus sentidos.
Levantou-se de sua prece e foi até o jardim. Lá chegando, deparou-se com a roseira em galhos, sem folhas, sem flores. Parou alguns minutos, pensou em silêncio e retornou ao quarto. Ajoelhou-se novamente e voltou às orações.
- Onde está a rosa, Belchior?
- A roseira não floresce no inverno.
- Eu não perguntei pela roseira.
- Não há rosa no jardim.
- Eu não mencionei o jardim.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Palhaço

Muitos olham sem ver.
Poucos veem sem olhar.
Para esses, não é possível tirar a pintura.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Assim mesmo

Não sei se eles me ouvem, mas eu falo assim mesmo.
Se eles não me ouvem, eu falo assim mesmo.
Se eles não querem me ouvir, eu falo.

domingo, 16 de maio de 2010

sábado, 8 de maio de 2010

s7t7

A existência de Deus é fato questionável.
A sabedoria divina, irrefutável.
Evoé, sábados e domingos de todas as feiras!

sexta-feira, 30 de abril de 2010

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Nobre

Há dias em que rimos até chorar.
Há dias intransitivos: choramos.
Há dias em que choramos e rimos sem saber por quê.
Há dias em que choramos e rimos, infelizmente, sabendo o porquê.
De tantos dias, três anos. De tantos outros, setenta e três.

sábado, 10 de abril de 2010

Flora

Amada Flora,
[...]
Lembro-me de nossas tardes juntos, em que, sentados à beira do córrego, conversávamos horas fazendo planos para nosso futuro. Lembro-me das flores que colhia e enfeitava seus cabelos, e de seu sorriso que me trazia a paz de que tanto precisava. Quando molhávamos os pés nos córrego e olhávamos o céu azul, rindo de nosso silêncio apaixonado, de nossa cumplicidade.
Nesse tempo não havia preconceito, discriminação e éramos livres, em nossas mentes, para podermos sonhar um mundo diferente, para acreditarmos que a religião era a confirmação de que necessitávamos para selar nossa união. Que as alianças, o altar, a bênção do divino e o nosso desejo selariam nossa relação que há tanto cultivávamos. Nosso amor não distinguia cores opostas, apenas complementares.
Não olvido nossas brincadeiras, nas tardes de sábado, após a igreja, que nos mostravam no campanário o quanto poderíamos ser felizes, o quanto éramos únicos, o quanto nos amávamos. Nos dias chuvosos, antes de irmos para casa, enxugava seus pés e observava seus olhos castanhos, infinitos.
Tudo isso passou, assim como as nuvens que cortam os céus. Algumas nuvens se transformam em chuva, alguns sonhos se transformam em lágrimas. O meu pranto não rola, ele preenche meu ser, afoga minha dor e contorce minha face para que esta velha Senhora, a quem sirvo, não perceba nada.
Deus meu deu intelecto, me deu engenho e me deu você, Flora, mas esta velha Senhora afastou de meu coração a possibilidade de viver as primaveras a seu lado. Sei que está casada, sei que é mãe e que ama o teu rebento de todo o coração, não porque mo dissessem, mas porque conheço sua alma e seu espírito, e rogo a Deus que a faça feliz por todos os anos de sua vida. Do lugar onde estou, é o que posso fazer para abrandar a minha ira, que aprendi em tantos annos de seminário ser um sentimento vil, mas que minha alma humana não descarta e que a reencontra em todos os momentos de solidão e reminiscência.
Da minha família de músicos, muitos cantam, dançam e tocam os mais variados instrumentos, mas nada hoje toca minh’alma, nenhum sentimento dança em meu coração e só sinos tocam em minha cabeça, não permitindo que eu olvide minhas obrigações para com esta velha Senhora.
Estou preso a esta velha decrépita, que nada conhece do amor, da paixão, do coração humano, apenas retórica e esgarçadas palavras vãs. Os mesmos que diziam que nossas peles eram distintas são os que louvam meu trabalho, que oferecem esmolas e beatitudes por pobres almas que nunca viram. Não sabem por que estão casadas, não celebram o santo matrimônio e frequentam a casa do Senhor como se fossem discípulos que carregam consigo uma boa-nova. Este é o mundo, este é o meu mundo.
Que o amor possa vencer sempre, ainda que tenha sido derrotado em nossa campanha, fruto incontestável de minha fraqueza e de minha pusilanimidade, chagas que carrego comigo e que as levarei desta vida. Que não haja distância, que não haja medo, que as diferenças sejam motivo de união e regozijo, que os homens sejam instrumentos da palavra de Deus e que esta velha Senhora encontre a morte e, na ressureição, a verdade que ela sempre desconheceu e que tanto insiste em nos ensinar.
[...]
Com amor. Sempre.
Seu B.
São Bento do Tamanduá, 22 de dezembro de 1896.

terça-feira, 30 de março de 2010

Outros campos

Para Armando Nogueira
O Nogueira que cronicava frutos se calou.
Partiu para outros campos, não menos verdejantes, não menos poéticos.
O Armando segue grafando. A memória.

sábado, 27 de março de 2010

A morte

Uma curva.
Com poucos passos, surge um urubu. Introspectivo, coça o peito com o bico. Não me vê.
Na sequência dos passos, surgem outros urubus. Conversam entre si, mudos.
Percebem minha presença, atraindo a atenção do primeiro e de outros que vão surgindo.
Nesse momento, há centenas deles. Todos me olham.
Sigo caminhando. Não paro.
Os primeiros passos de um deles desencadeiam o caminhar dos demais.
Líder, membro ou presa? A morte não é pródiga em certezas.

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...