- A pé, Dona Quiméria? A pé não dá, é muito longe. O Marrocos fica do outro lado do Atlântico.
- Meu fio, num tô preocupada de que lado o Atlântico tá: num torço pra ele e, se ele engraçá com gente, nós metemo taioba nele tamém.
- O Atlântico é um mar, Dona Quiméria.
- Eu sei, meu fio. E daí? Moisés andô quarenta ano no deserto com o povo dele dispois de tê atravessado o Mar Vermeio e ninguém falô que era longe. Nós vamu andá muito menos... Nós num temu esse tempo todo tamém.
Prosseguiu ela:
- Eta, tô pensando aqui: nós tamém vão tê que atravessá o vermeio, só que em vez de sê o mar vai sê o porco. - e sorriu.
- Nós tamu saino hoje purque hoje é dia de São Humberto, o santo protetô dos caçadô. Com nosso grupo certinho, as peça certa, a munição vera e o santo junto, vai ficá mais fácil enfrentá o Xubitis. Agora, meu fio, ocê num repará não que nós temo que botá o pé na estrada. Temo que passá no Recife antes de sigui pro Marrocos.
- Para quê, Dona Quiméria?
- Isso é um segredo, meu fio. Dispois de resolvido, iscrevo pr'ocê contano.
Prendeu o saco de bala na algibeira, fez sinal para o Chicão pegar as iscas, colocou o Elotero nas costas, juntou alguns pertences e gritou:
- Meninada, nós saímu hoje pr'uma caçada grande, a maió da nossa vida até agora. Nós sabemu que o Xulrutis tá esperando a gente iqui num acredita que nós podemu dirrubá ele. Acha que nós somu um bando de morto de fome, de peladeiro sem rumo nem prumo, que vamu chega lá e caí que nem pato. Pato não, purque aqui é Galo!!!
Um trovão ressoou no terreiro. Seguiu ela:
- Nada foi fácil até agora e num ia sê agora que ia mudá. Intão, pode prepará pra guerra, pode prepará pro sofrimento, até mesmo pra dor, mas tamém pode prepará pra alegria, pra vitória, pro banquete. Só vai dependê de nós: se nós somu o Davi, vamo sentá a funda nesse Golias!
Um novo estrondo iluminou o terreiro.
- Vamu mostrá que o que é impossíve pros otros, pra nós é história, é magia, é festa. Por aqui é Galo, e o Galo num disiste nunca. Vamu pegá esse Xubitis e prepará uma boa feijoada com ele, completa, com trupicão à vontade, com muita foia de couve e laranja baía. Sem medo, mininada, porque o futuro é nosso. - e concluiu gritando: Galo!!!
O quintal, vivo, respondeu novamente. Dona Quiméria partiu, seguida pelo Chicão, e me pediu que abrisse a porta da cozinha, que levava ao quintal: "Pr'os minino saí".
Ao abrir a porta da cozinha, um mar de galos se avolumava a minha frente, a perder de vista. Eram muitos, inúmeros, milhares, de todas as cores, de todas as raças, de todos os credos, todos seguindo Dona Quiméria. Um espetáculo magnífico, único, tal como será a caçada a esse bávaro vermelho.
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