domingo, 3 de novembro de 2013

Caçada ao bávaro vermelho

Estampidos roucos avisaram-me que a casa estava em guerra.
- Dona Quiméria?! - gritei eu.
Rebombaram mais alguns e só. Silêncio. Alguns segundos depois, a porta da cozinha se abriu e apareceu Dona Quiméria com uma cara de front.
- Ô meu fio, é ocê? Vamo entrá. Num repara não que eu tô em campanha.
- Que barulho era esse, Dona Quiméria? Parecia tiro.
- Nonada. Tiros que ocê ouviu não foram de briga não, Deus esteja. Era o Elotero limpando a garganta.
- Quem?
- Vamo entrá que eu mostro pr'ocê.
Reinava na casa um ar diferente, que não pode ser explicado, desse que antecede os grandes feitos. As janelas estavam fechadas e havia alguns volumes na sala, ao lado dos quais se colocava o Luisinho.
- Olá, Luisinho. - saudei o cachorro. Ele me olhou, mostrou os dentes e rosnou como um leão.
- Eta, meu fio! Num chama o Chicão de Luisinho que ele num gosta.
- Mas achei que fosse o Luisinho...
- Os óio da gente pode se enganá, meu fio. - disse ela afagando a cabeça do Chicão, o que fez com que ele guardasse os dentes.
A pouca luz que penetrava o ambiente me trouxe a certeza: na casa reinava um fim de ciclo. Perguntei:
- A senhora vai viajar?
- Eu só não: eu, os minino, o Chicão, o Elotero e mais um grupo de amigo.
- Para onde?
Enquanto perguntava, Dona Quiméria me deu as costas e entrou em um quarto, ainda mais escuro do que a sala em que estávamos. Não respondeu.
Como ela demorava e havia ruídos no quarto, perguntei de novo:
- Pra onde?
- Pro Marrocos -  respondeu ela aparecendo com uma espingarda descomunal nas mãos.
- Que isso, Dona Quiméria?
- É o Elotero, meu fio. Ocê num pergunto por ele. Tá aí ele.
Não era bem uma espingarda, mas um bacamarte colossal, com um aspecto bem velho e alguns pontos de ferrugem.
- Nós vamo atrás do Xútis.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...