quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Um estranho caso - parte X (final)

Acordando assustado com um galo a rasgar o dia, levanta-se apoiando na parede e sente que o corpo todo dói. Tião Canjerê jaz, enfim, em definitivo, na mesa, e os primeiros raios de sol fecham a madrugada. Cobre o corpo do defunto, sai da casa e vê, não longe dali, o que deve ter sido a pocilga e um rastro de destruição na capoeira que parte dela.
Voltando para a casa, encontra-se com um grupo que segue, em procissão, para um sepultamento. Não há muitas pessoas, não reconhece nenhuma delas, mas percebe que a rede que leva o defunto é pequena, certamente uma criança.
Ao notarem o paramento do padre, todos param e pedem a bênção.
- Deus os abençoe, meus filhos. Que Deus receba esse irmão no Reino dos Céus.
- Amém, seu padre. – Respondem todos.
- É um menino?
- Sim, sinhô. É meu fio, Quincas, seu padi, que morreu onti dispois do almoço. Era um minino muito bão e, doentinho que tava, pediu que, morrendo, fosse enterrado logo que o galo cantasse.
Um brilho apavorante toma o pensamento do padre.
- Posso vê-lo? – Pede Xota apontando para a rede.
- Pode sim, sinhô. Faço até gosto que o sinhô abençoa o minino de novo.
Xota caminha até a rede e, com lentidão, abre não mais que um palmo entre as duas bandas que enrolam a criança. Não tem dúvidas: ali está o garoto que fora chamá-lo em casa. Seus olhos marejam, a visão se turva e uma breve zonzeira faz com que os pés dancem uma música surda.
- Acode, gente! – Grita um dos homens.
- Está tudo bem. Tudo bem. – Afirma Xota tentando se recompor. – Estou há muito tempo sem comer e me emocionei ao ver essa criança... tão jovem... – respirando fundo. Busca o que dizer e, em segundos: – Deus escreve certo por linhas tortas, e nós que aprendamos a ler, não é mesmo? – Diz sorrindo.
Os homens balançam a cabeça afirmativamente, e alguns améns são ouvidos. O padre os abençoa e busca o caminho da casa, enquanto a procissão segue para o cemitério.
Quando se afasta, uma dúvida salta à frente de Xota e o faz parar, virar e indagar:
- Seu Zé, o senhor conhece a Rita?
- Uai, padi, cumé que o sinhô sabe meu nome?
- O senhor me disse agora há pouco, não?
O homem balança a cabeça negativamente.
- Desculpe-me, senhor. Tive uma noite difícil e certamente esse nome me veio à mente.
O homem balança a cabeça e responde:
- Não, padi. Não cunheço essa Rita.
- A família Pemba, o senhor conhece?
- Só os minino da banda, mas num temo amizade não.
- Está certo, então. Muito obrigado, seu Zé.
- Eu inté vi esses minino Pemba onti à tarde, padi, lá no cemitério, no enterro do Tião Canjerê.
As palavras faltam à boca do padre.
O homem prossegue:
- O Tião, o sinhô cunheceu? Morreu antes de onti e nós enterremu onti à tarde. Sofreu muito esse: umas dor, umas doença... foi muito triste... pediu muita ajuda antes de morrê... mas descansô o pobre coitado. Deus teve piedade – e faz o nome do Pai.
Xota não sabe mais o que pensar, nem como pensar. Olha o pulso e percebe o hematoma no local em que Tião o havia agarrado. Conclui, mudo, o restante do caminho até chegar em casa.
Ao descansar a aldraba, encontra-se com a mãe no corredor e ouve:
- Acabou, meu filho. Acabou. Deus teve piedade de nós.

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