ao chegar às quatro dezenas
me vi incompleto
faltavam as vogais
as consoantes, rotas
uma lágrima umedeceu minha boca árida
agrediu meus dentes mastigados
exigiu que fosse única e tocou meus pés
não há tempo para parar, disse o anjo,
torto, que vive à sombra.
a poeira do primeiro passo
o uivo da alvorada
o tom da caneta.
mais um ano foi aberto.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2016
quinta-feira, 28 de janeiro de 2016
Demonstrativos - parte II
Simples, não? Sem dúvidas. Agora, se o homem chega em casa e vê a mulher se despedindo de outro homem, mas se esse ainda está na cena, indagará:
– Quem é esse homem?
Note, leitor, que essa situação deu origem a um triângulo. Para quem gosta de esquemas visualizadores, monta-se assim: um triângulo equilátero que em cada ponta tenha uma das figuras envolvidas. Se um dos vértices se deslocar (correr) bruscamente, todo o conjunto se move.
Na terceira possibilidade, o homem chega em casa, vê a mulher se despedindo de outro homem, aproxima-se do despedido, segura-o pela camisa com a mão destra e apregoa-lhe um tapa na cara com a mão sestra, indagando:
– Quem é este homem?
Nessa conjuntura, leitor, a situação dá origem a uma figura geométrica denominada “barraco”. O barraco se caracteriza por formas variáveis, cabíveis de expansão e retração, que são regidas por regras próprias e possuem alta instabilidade. Só se tornam estáveis quando os vértices (que podem ser em número de três ou mais) se reduzem a dois ou a um.
Perceba, leitor, quantos conhecimentos simultâneos podemos extrair desse fato. A ação foi a visão do outro e a reação foi o tapa na cara. O marido poderia ter socado o outro, mas optou por um tapa. Sabe, com certeza, que todo tapa (como já dizia Nelson Rodrigues) é o mais transcendente de todos os atos humanos. Um soco se perde no hematoma; um tapa se perde no velório.
Além disso, utilizou-se da máxima: “Bater primeiro e perguntar depois”. Perceba o espaço para o diálogo, tão próprio da democracia. Veja que o “coroado” é politicamente correto, pois não disse nenhuma palavra chula ou se referiu à mulher com adjetivos zoológicos. Também é a favor do não-armamento dos civis, tendo evitado alguns disparos no meliante.
Algumas outras considerações poderiam ser feitas, mas fico por aqui. Espero que, com este curto texto, as idéias e pré-conceitos sobre a Língua Portuguesa sejam repensadas. Quanto às casadas, amantes do perigo e da adrenalina, sugiro mais cuidado.
***
Texto originalmente publicado em 2002.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
Demonstrativos - parte I
Para alguns néscios, a língua portuguesa é apenas
“aquilo” que nós, brasileiros, utilizamos para nos expressar. Os mesmos
(néscios) ainda consideram o estudo da língua como algo menor, como uma “falta
de opção” daqueles que se propõem a fazê-lo. Pois bem, esses idiotas me
irritam! Não só pela total ausência de conhecimento sobre o que são as Letras, como também pela arrogante
valorização de conteúdos próprios. Não se lembram que a expressão de suas
idéias se dará pela língua portuguesa.
Grande parte dos profissionais da área de Letras é
vista como gramáticas e dicionários ambulantes, uma espécie de programa de
computador de última geração que, ao ser questionado, dará uma resposta precisa
e definitiva em poucos segundos (as Letras
como Ciências Exatas). Como
“expoentes de alta tecnologia”, deveriam oferecer respostas a baixos preços ou
até mesmo de forma gratuita. Novamente a obtusidade: inovação tecnológica dá
muito trabalho e não costuma ser barata, além de requerer profissionais
qualificados.
Quem, da área de Letras, nunca foi indagado: é xuxu ou chuchu? com “x” ou “ch”? A maneira correta é cadê ou quede? O que quer
dizer capadócio? E comborço? Diante de tantas dúvidas,
pensei que poderia dar minha colaboração, fazendo uma breve demonstração,
passível do cotidiano, da utilização dos pronomes demonstrativos este e esse.
Começo pelas personagens: uma mulher, seu amante e o
marido “coroado”. A cena é a seguinte: o marido (lembre-se: o “coroado” é
sempre o último a saber!) chega em casa e a mulher está se despedindo do
amante. Comecemos de maneira evidente. Se o marido chegou em casa, viu a mulher
se despedindo de outro homem e esse já está longe, indagará:
– Quem é aquele
homem?
terça-feira, 26 de janeiro de 2016
Real ficção
Vivemos um momento de mestres e aprendizes, bem parecido com outros tempos, mais fantásticos e mitológicos, quando dragões, magos e criaturas maravilhosas viviam incríveis jornadas. Observe bem o que temos: o dragão da inflação, o mago dos computadores e, na Argentina, até Cavallo fala e é ministro. Brasileiros, contenham-se! A Argentina não está a nossa frente: aqui também muitas bestas falam e até tucanos governam. É a real ficção de Pierre Boulle[1].
___________________________
[1] Autor de “O Planeta dos Macacos”.
* Trecho de "RH", publicado originalmente em agosto de 2001.
sábado, 23 de janeiro de 2016
Gosto do jardineiro
Ninguém mais fala, hoje em dia, flor da
mocidade, não é? Esse é um termo antigo, talvez até um arcaísmo, quiçá
jurássico. Vejo uma metáfora muita bela em suas palavras e
acho até que existe uma verdade científica. A mocidade tem a flor, a madura
idade tem os espinhos: é o gosto do Jardineiro.
* Trecho de "Saúde", originalmente publicado em 2002.
terça-feira, 19 de janeiro de 2016
Tubarão solitário
Certa vez, fui a um casamento em que o noivo não se continha, chorando compulsivamente. A noiva não havia chegado, e ele em lágrimas. Pensei que ele deveria amá-la de mais e estar emocionado em excesso com aquele momento. Quando vi a noiva entrando pela igreja, entendi tudo. Desconjuro! Que noiva malarrumada! Não estava emocionado, estava decepcionado. O tapete vermelho era a antítese da prancha. Na prancha, quem caminha será devorado pelos tubarões; ali, na igreja, o tubarão solitário agonizava. Rezei por sua alma.
* Trecho de "Semântica", originalmente publicado em 2002.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
Carranca
sobram dentes
olhos
e os baixos relevos da alma.
e o demoníaco canto das vespas.
estado bruto.
olhos
e os baixos relevos da alma.
e o demoníaco canto das vespas.
estado bruto.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2016
Cachoeira dos Três Pingos
três reis magos correm
um aos gritos
um aos sustos
um pelo gosto de correr
três marimbondos voam.
profissionais. ortodoxos.
apenas ferroam.
intransitivos.
três reis magos seguem o doce cantar das águas.
os marimbondos não querem sinfonias.
herméticos, querem sossego, só.
- corre, Baltazar! corre, Gaspar!
não há boa-nova que pare esses marimbondos.
lá se vão os três reis
aos pulos
aos berros
no valha-me-Deus do morro acima
onde a história será contada.
com a bênção da chuva.
um aos gritos
um aos sustos
um pelo gosto de correr
três marimbondos voam.
profissionais. ortodoxos.
apenas ferroam.
intransitivos.
três reis magos seguem o doce cantar das águas.
os marimbondos não querem sinfonias.
herméticos, querem sossego, só.
- corre, Baltazar! corre, Gaspar!
não há boa-nova que pare esses marimbondos.
lá se vão os três reis
aos pulos
aos berros
no valha-me-Deus do morro acima
onde a história será contada.
com a bênção da chuva.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
10x7x4
Os mandamentos da lei de Deus são dez, os pecados capitais são sete, e as virtudes teologais apenas quatro para tamanha responsabilidade.
Carlos Drummond de Andrade
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
Silêncio em cores
Sobre as nuvens
Torre de transmissão de uma emissora de televisão é vista a partir de uma montanha nos arredores da cidade Pecs, na Hungria. Foto: Tamas Soki / MTI / AP.
http://fotos.estadao.com.br/galerias/fotografia,imagens-de-8-de-dezembro,22941?startSlide=0&f=0
***
O silêncio das estrelas é colorido.
quarta-feira, 7 de outubro de 2015
Pedrês
[...], porque a estória de um burrinho, como a história de um homem grande, é bem dada no resumo de um só dia de sua vida.
João Guimarães Rosa
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Mar de vento
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