Simples, não? Sem dúvidas. Agora, se o homem chega em casa e vê a mulher se despedindo de outro homem, mas se esse ainda está na cena, indagará:
– Quem é esse homem?
Note, leitor, que essa situação deu origem a um triângulo. Para quem gosta de esquemas visualizadores, monta-se assim: um triângulo equilátero que em cada ponta tenha uma das figuras envolvidas. Se um dos vértices se deslocar (correr) bruscamente, todo o conjunto se move.
Na terceira possibilidade, o homem chega em casa, vê a mulher se despedindo de outro homem, aproxima-se do despedido, segura-o pela camisa com a mão destra e apregoa-lhe um tapa na cara com a mão sestra, indagando:
– Quem é este homem?
Nessa conjuntura, leitor, a situação dá origem a uma figura geométrica denominada “barraco”. O barraco se caracteriza por formas variáveis, cabíveis de expansão e retração, que são regidas por regras próprias e possuem alta instabilidade. Só se tornam estáveis quando os vértices (que podem ser em número de três ou mais) se reduzem a dois ou a um.
Perceba, leitor, quantos conhecimentos simultâneos podemos extrair desse fato. A ação foi a visão do outro e a reação foi o tapa na cara. O marido poderia ter socado o outro, mas optou por um tapa. Sabe, com certeza, que todo tapa (como já dizia Nelson Rodrigues) é o mais transcendente de todos os atos humanos. Um soco se perde no hematoma; um tapa se perde no velório.
Além disso, utilizou-se da máxima: “Bater primeiro e perguntar depois”. Perceba o espaço para o diálogo, tão próprio da democracia. Veja que o “coroado” é politicamente correto, pois não disse nenhuma palavra chula ou se referiu à mulher com adjetivos zoológicos. Também é a favor do não-armamento dos civis, tendo evitado alguns disparos no meliante.
Algumas outras considerações poderiam ser feitas, mas fico por aqui. Espero que, com este curto texto, as idéias e pré-conceitos sobre a Língua Portuguesa sejam repensadas. Quanto às casadas, amantes do perigo e da adrenalina, sugiro mais cuidado.
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Texto originalmente publicado em 2002.
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