segunda-feira, 4 de março de 2013

O pactário - parte I

Para Edgar Alan Poe
– Só a senhora pode me ajudar. Meu namorado me deixou e eu quero ele de volta.
– Não se preocupe, minha filha. Madame Adelaide resolverá seus problemas com as forças do céu.
– Eu quero ele de volta o mais rápido possível. Não importa o preço!
A vidente sorriu ao ouvir o tilintar profético do futuro. Não era a primeira vez que aquela mulher comparecia ao consultório de Madame Adelaide, mas, até então, apenas pequenas minúcias de uma alma tola e perdida. Dessa vez, a cliente, emocionalmente alterada, mostrava uma energia única, decidida, como se a própria existência dependesse do sucesso daquele trabalho.
– Não me diga nada ainda. Deixe que me concentre e invoque as forças celestiais.
A cliente não se continha e gesticulava energicamente, batendo as costas de uma mão na palma da outra:
– Esse homem é meu. Eu quero ele comendo na minha mão.
– Silêncio, minha filha. Nesse momento de contato, é preciso concentração para ouvir os anjos. Em breve, você terá esse homem de volta.
Enquanto fechava os olhos e esticava as mãos sobre a mesa, a vidente ganhava tempo. Algum tempo depois, a mesa se mexeu bruscamente, resultado de um pontapé dado pela própria vidente, mas não percebido pela cliente.
– É um sinal. Eles estão chegando. Eu sinto a presença de forças celestiais nessa sala.

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