A cliente, desesperada, insistiu em forçar a porta e acabou ferindo as mãos.
– Que belo sangue escorre de suas mãos. Vamos, leve-o à boca! Experimente o gosto de sua essência e descubra quem você é.
Choro e histeria.
– Você não devia ter essa cara de pavor diante de sangue, uma vez que ele é matéria-prima de seus esmaltes. Ah, você não gosta do seu sangue? O dos outros é muito melhor, não? Você se deleita em ferir e matar e se sente atacada quando sente o ígneo calor do seu interior escorrer pelas mãos? Não, verme, esse sangue maculado que sente fluir por seu corpo é a seiva vil que você carrega e que passará aos seus descendentes. Não chore! Levante-se! Você não morrerá hoje.
A cliente, em horror, tentava se levantar e levava as mãos ao peito, em um claro movimento de quem não respira. Em um estado crescente de pavor, desmaiou embalada pela gargalhada infernal da vidente.
Ao despertar, estava caída ao chão, com a maquiagem borrada pelas lágrimas e com o corpo todo doendo, tal como se uma surra tivesse lhe cantado no lombo. Não havia marcas de violência, não houvera violência: apenas a contração aflita dos músculos e o medo que tensiona a alma.
A vidente seguia sentada na cadeira, olhos cerrados, agora muda e com o diminuto aspecto físico inicial.
A cliente se levantou e, com soluços engasgados, buscou a porta, que não ofereceu resistência para ser aberta. Quando se projetava para fora, ouviu a voz bestial:
– Não há Pilatos que lave suas mãos.
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