– Você se esconde nesse véu de pureza, mas tem a alma corrompida pela maldade. Você não engana ninguém com suas histórias tristes, com seus fingimentos de dor e de solidão, com seus presentes e agrados interesseiros e interessados. Seu hálito podre e suas mãos aduncas só desejam o mal, que, para você, se transubstancia em bem, num falso bem que você insiste em propalar.
A cliente se levantou e correu para a porta, que estava fechada. Ensandecida, aos gritos:
– Eu quero sair! Abra! Abra!
– Grite, víbora! Grite à vontade, que a língua das serpentes só é ouvida pelas orlas infernais. Socorro virá embalado por choro e ranger de dentes e você estará ao lado de seus iguais.
A cliente gritava, aos prantos, pedindo a Deus que a tirasse dali.
– Não, Deus não virá. Agora somos só nós dois.
A mulher socava e chutava a porta, aos berros, naquela aflição que antecede a morte.
A vidente se calou, e o cansaço fez a cliente ir ao chão em prantos. A luz retornou à intensidade inicial, e a pobre mulher, caída ao chão, balbuciou trêmula:
– Madame Adelaide, estou passando mal. Abra a porta por favor. Sinto uma dor no peito.
– Não repita o nome dessa charlatã desqualificada – urrou uma voz masculina vinda dos lábios da vidente. – Não finja para mim, pois suas encenações teatrais são fracas e repetidas.
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