quinta-feira, 4 de junho de 2020

A hora da mula

Fonte da imagem: https://bit.ly/3dyNz8T
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Dona Amélia,

Há muito tempo não nos falamos e, há poucos dias, quando surgiu a oportunidade de jantarmos juntos e então conversar, a sra. se sentiu “indisposta” e se retirou da mesa. Não a recrimino, pois eu também me sentiria “indisposto”. Sentar-se à mesa é compartilhar, e partilhar com é uma atitude para a qual precisamos de empatia e estômago. Sem a primeira, o segundo será vazio. Sem o segundo, não há a primeira. 

Já se vão longos anos desde que conversávamos com o Sr. Petão, o almocreve, e ele noz dizia do ofício de guiar mulas de um lado para o outro. A senhora deve se lembrar que ele ficou nos devendo a história de uma mulinha, uma que era bastante diferente das demais, muito lampeira e cheia de miçangas. Naquela ocasião, ele atrasado, desculpou-se por deixar a senhora à janela justificando a demora pela perda do texto original. Pois é, Dona Amélia, esse texto foi achado. 

É interessante observar que, quando tudo parecia perdido, uma luz breve piscou e, no seu rastro, sem pressa, o texto reapareceu. O Sr. Petão ficou alegre demais, sem palavras para explicar o que sentia, nem como o texto havia sumido e reaparecido. Ele me disse que, ao encontrar o original, um desejo de completá-lo e publicá-lo tomou conta dele, mas só no início. À medida que lia, a história daquela mulinha perdia o encanto, enfoscava-se, tornava-se uma piada sem graça, que nem a ele mais fazia rir. Aquela mula, Daquelinha, completara sua jornada com ele e partira com uma nova tropa, num novo caminho. 

A outra mula, a toda branca e de crina quase loira, sumiu, ninguém sabe, ninguém viu, e o próprio Sr. Petão tem dificuldades de dizer alguma coisa sobre ela. Penso que morreu antes mesmo de nascer e não fará falta. Que ela descanse em paz no cemitério das ilusões, para onde vão todas as insignificâncias. 

Toda essa volta, Dona Amélia, e a citação do Sr. Petão são para dizer que as mulas me ensinaram muito nesses anos todos. Tocando a tropa ao lado do almocreve, percebi que o verso de Augusto dos Anjos, 

“O homem, que, nesta terra miserável, 
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.”

é a epígrafe de quem fui e o epitáfio de quem quero ser. As mulas têm o meu respeito, mas, se viver entre elas, é inevitavelmente ser uma delas, então adeus.

Da próxima vez que estivermos juntos, Dona Amélia, para jantar ou não, a mesa estará posta, a toalha branca, e sentaremos juntos, para que eu possa dizer-lhe o que ainda não ouviu. Peço que tenha paciência com meu relato e me conceda a boa vontade da compaixão, que é do que precisa uma mula desgarrada da tropa. Também quero ouvi-la e saber o que sentiu e o que sente, quais foram as dores que minha andadura causou na senhora e que marcas minhas ferraduras infligiram ao caminho.

Se ao final de nossa conversa, ainda estiver “indisposta”, fique à vontade para se levantar e deixar a mesa. Se isso acontecer, saberei que nós dois, de mãos separadas, sairemos não felizes, mas coligados. Se conseguir aceitar meu pedido de desculpas e entender minhas palavras zurradas, será nossa comunhão.

Com o carinho e o respeito.

B.M.

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