segunda-feira, 22 de junho de 2020

Eu, Testosterona [parte 3]

[Silêncio] 
– E o que mais?
– Queria que você me ajudasse com as construções, que me desse umas dicas sobre a melhor forma de narrar, sobre as vírgulas, sobre as personagens.
– Bem, tenho que lhe dizer que o que você deseja precisaria ter sido pensado antes do texto estar pronto, pois agora o trabalho será enorme para fazer isso.
– Não se preocupe, isso é simples. 
– Você usou esse mesmo método nos outros livros? 
– Não, não. 
– Como fez nos outros? 
– Foi inspiração. Tive uma ideia e escrevi. 
– E o trabalho com a língua? 
– Ainda não foi feito. 
– Então você escolheu começar por esse? 
– Sim. 
– Você tem inúmeras páginas escritas que precisam ser avaliadas, é isso? 
– Ah, não são "inúmeras". 
– É um livro pequeno, então? Na verdade, um conto. 
– Não, não, não é um conto! É um livro mesmo. 
– Quantas páginas ele tem? 
– Não muitas. 
– Me diga quantas são. 
– Huljileopnbertyad 
– Desculpe. Não entendi. 
– Bgtradoleuncte. 
– A ligação ficou péssima. Não consegui entender. 
– Estou mudando de lugar. Melhorou? 
– Sim, agora sim. Quantas são? 
– Então, na verdade... Bem, na verdade, eu queria sua ajuda na redação do livro. 
– Para escrever o livro? 
– É isso. Isso mesmo. 
– Você não tem nada escrito, então? 
– Não, não, tenho. 
– Você só tem a história? 
– Não, não, claro que não! O livro está pronto na minha cabeça. 
– Ah, sim, na sua cabeça. Só falta passar para o papel. 
– É isso! Sabia que você ia me entender. 
– Quanto você já escreveu? 
– O mais importante. 
– Que é? 
– O fim. 
– Você tem o capítulo final. 
– Quase... 
– Quase como? 
– É... quer dizer, eu tenho o fechamento, a frase final. 
– A frase?
– Isso, a frase. O fechamento do romance, a chave de ouro, o ponto alto de toda uma história de amor.

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