em meio a tantas chicanas, uma chama de lucidez:
"Está tudo sob controle... Não sabemos de quem."
sábado, 18 de abril de 2020
sexta-feira, 10 de abril de 2020
Graal - parte III
O homem se lançou desesperadamente à frente na expectativa de se agarrar ao estranho, mas só encontrou areia e pedras. Sentiu algo quente pela face e, levando a mão, encontrou um filete de sangue que jorrava.
– Quem é você, desgraçado? Que zomba de um moribundo e usa a sagrada escritura para escarnecer de minha miséria? Que tipo de homem é você? Ou você é um demônio, tal qual aquele que tentou o Salvador?
- Devo admitir que você conhece a Bíblia, cristão, mas não posso dizer que você a entende.
Com um movimento rápido, tomou o cálice da mão do homem.
– Não! – Gritou o moribundo.
– O que há, homem? Se não acredita em mim, por que se agarra ao cálice?
Sujo, coberto de areia e com uma máscara de poeira e sangue, tentou se levantar. O corpo disse não.
– Beba mais, cristão. Quem sabe assim você consegue limpar seu coração.
O homem virou-se lentamente e esticou o braço. Tocou o cálice. Pegou e o levou a boca. Vazio.
- Desgraçado! Não bastasse minha dor, você ainda zomba de mim?
Nesse momento, sentiu água tocando-lhe o rosto: o estranho a jogava nele.
- Aí está sua água, cristão. Ou você precisa do cálice para salvar-se? Você crê na palavra ou na materialidade do objeto? – Disse tomando-lhe o cálice.
O vento seco riu novamente.
- Você caminhou muito para não chegar a lugar nenhum. Aproveite essa água, lave os olhos e encontre o caminho de sua casa.
- Estou cego! – Gritou o homem. – Como vou a algum lugar?
- Cego você é há muito tempo, mas mesmo assim chegou até aqui. Pergunte-se como.
O estranho se afastou.
- Não me deixe aqui, estranho!
- Adeus, cristão.
- Quem é você? Qual seu nome?
- Lembre-se de mim como o homem do Graal.
- Maldito! Não zombe da Cristandade!
O estranho riu brevemente.
- Espero que a água da vida, em algum momento, toque seu coração. Sua jornada está perdida, mas a semeadura ainda não acabou. Desperte e salve-se. Ninguém o fará por você. Enquanto buscar fora, o interior estará vazio.
O moribundo tentou gritar, mas sua voz estava presa na noite.
***
quinta-feira, 9 de abril de 2020
Graal - parte II
O silêncio permaneceu por um longo período.
- Cristão, vendo-o daqui, na condição em que se encontra, faz realmente diferença para você quem sou eu?
- Ajude-me, estranho. Dê-me água!
- Beba, cristão. Essa é a água da vida.
Sentiu algo tocar-lhe as mãos e percebeu que se tratava de um cálice. Bebeu avidamente, deixando que grande parte escorresse pelo corpo.
- Mais! - Implorou o homem.
O estranho tomou o cálice dele, encheu-o e estendeu a mão:
- Aqui.
Bebeu rapidamente e pediu mais.
- Sim, cristão, mas cuidado para não quebrar o Graal.
O mundo parou.
- O que disse?
- Cuidado para não quebrar o Graal - respondeu o estranho.
O homem apertou fortemente o cálice, buscando cada recorte daquela peça, contornando cada curva, cada saliência. Cheirou, bateu nele com os dedos, alisou-o.
- Que brincadeira é essa? Por que chama esse simples cálice de Graal?
- Cristão, esse é o Graal. Por que você pensa que estou brincando?
- Você, estranho, de quem não sei o nome, não deveria usar o sacro nome do cálice sagrado nesse cálice miserável! – Disse mostrando irritação.
- Esse cálice “miserável”, cristão, está salvando sua vida. Essa que você bebe é a água da vida, ou sua fé não é suficiente para mostrar-lhe esse gosto?
O homem agarrou-se ainda mais ao cálice.
– Dê-me. – Pediu o estranho. – Beba mais.
O moribundo protegeu o cálice como se o outro pudesse roubá-lo.
– O que há? Não quer mais? Já está salvo?
Com uma mão segurando o objeto, levou a outra aos olhos, desesperado pela visão que lhe faltava.
– Sua fé precisa dos olhos, cristão?
O homem estava desnorteado. Não sabia o que dizer, o que fazer. Talvez agora pudesse chorar, gritar, levantar e se jogar sobre o estranho...
– Dê-me sua mão, estranho. Deixe-me tocá-la!
– Você procura as chagas?
quarta-feira, 8 de abril de 2020
Graal - parte I
De uma noite que andei longe
Não conseguia mais dobrar o joelho da perna direita, pois a dor era insuportável. O esforço com todo o lado esquerdo do corpo para puxar o direito esmagava os pensamentos, e as ideias se embolavam na mente. Não conseguia organizá-las, o que o tornava ainda mais perdido, pois o caminho já não o sabia há muito.
Topou com algum obstáculo pelo caminho e logo foi ao chão. Desmaiou. Sonhou: um sonho vazio, silencioso, branco. Uma onda de horror tomou conta dele e um projeto de grito que não se concretizou o despertou. Trevas.
Não enxergava.
Não era noite.
Estava cego.
Tentou gritar, mas a garganta seca não respondeu. Levou as mãos aos olhos, socou a própria cabeça, desesperou-se e o choro se irrompeu. Seco como aquelas areias em que se estendia.
Era o fim.
Invocou o nome do Santíssimo, pedindo à Mãe que intercedesse por ele.
Um vento seco riu dele.
Tentou gritar outras vezes, mas a dor na boca árida só crescia. Desmaiou novamente.
Dessa vez, não houve sonho. Só o nada.
Despertou sentindo o calor do sol e, com esforço, sentou-se. A certeza da morte tomou conta dele e fez brotar uma reflexão agreste. Dedicara a vida a encontrar o Santo Graal, a servir à Cristandade e à glória do Pai, mas agora estava só.
Não apenas só. Velho, doente, machucado, há dias sem comer ou beber, com dores terríveis na garganta, cego, castigado pelo sol, perdido. Meio morto, meio vivo. Só.
Sem forças para levantar ou mesmo para pensar, ficou onde estava. Sentado. Seco.
Acordado, sonhou com o Graal, com o cálice, com a vida eterna. Com a glória.
- Ei, cristão!
Essa voz chamou-o à realidade e fez com que piscasse os olhos freneticamente. Sem resultado, esfregou as mãos nos olhos na vã esperança de ver quem era.
- Quem é? Quem está aí?
terça-feira, 31 de março de 2020
Ninguém solta
daqui e de lá
Estamos há 15 dias em (quase) confinamento, e a expectativa é de que muitos outros dias se juntem a esses primeiros. Não será fácil, mas vai passar. Tal como afirmou Shakespeare, "não há longa noite que não encontre o dia."
É hora de serenidade.
Neste momento, mais do que no ano da eleição, ninguém solta a mão de ninguém, mesmo que não nos toquemos.
Ninguém solta o outro do pensamento e da oração.
Ninguém solta o outro do sorriso e da escuta.
Ninguém solta o outro porque o outro não existe.
Nós também somos o outro.
sexta-feira, 20 de março de 2020
domingo, 15 de março de 2020
A flor dos Mendes
Minha amada Queta,
Comemoramos hoje mais um ano de seu nascimento, e quero oferecer a você um buquê de flores, belas, algumas excêntricas, mas sempre únicas, das famílias que você tão bem conhece e das quais você é a principal: as Mendes e as Cerqueira. Reconheço a beleza de sua mãe, Dona Carolina, mas quis o destino que ela não empunhasse nem Mendes, nem Cerqueira. Sua irmã Maria, mais velha que você, certamente carregava em si a semente, mas, de forma semelhante, quis a história que não houvesse germinação. Coube a você, Queta, a alegria, a beleza e a dor de iniciar as linhas de nossa história, e por isso hoje, 15 de março, festejamos sua vida.
Espero que o Major leia esta carta com você e que, se o coração dele se encher de ciúmes por causa da “amada” que abre esta carta, releve o sentimento tão próximo que nos sustenta. Entendo o ruído dessa “intimidade”, pois poucos (ou pouquíssimos) maridos estão aptos a perceber essas nuances de sentimento, esse espectro de cores de que é feito o amor e do qual são inúmeras as combinações, todas elas carregadas de ardor, mas que não se pintam apenas de vermelho. O pintor de uma cor só não sabe o que é arte.
Nesses tantos anos, o buquê dos Mendes iniciado por você está repleto de flores. Sempre lindo, perfumado e maravilhoso. Como, porém, nem tudo são flores, com perdão do trocadilho, esse nosso buquê está incompleto. Sei que esse assunto é espinhoso, mas não abordá-lo é permitir que insistamos nessa lacuna, quando, na verdade, deveríamos ter uma coluna.
Sim, Queta, é a Cerqueira que deveria ter sido Mendes. Lembro-me de quando ralhou comigo de forma irascível, literalmente me pondo a correr. Hoje parece engraçado, mas no dia foi assustador. Espero que tenha superado esse desencontro e que eu possa contar com seu apoio e afeto para esse fim.
Dizer que vou atrás dela seria uma incoerência, pois estou atrás dela há muito tempo. Tenho conversado com muita gente, evidentemente sem revelar que a procuro, e muitas informações importantes têm surgido. Quando encontrá-la, teremos a chance de fechar um ciclo e avançar em nossa narrativa.
Antes de terminar, quero dizer que, na última semana, encontrei-me com uma Cerqueira, ainda que sequer ouvisse sua voz. Ao contemplá-la, cabelos, pele, olhos, boca e andar, tive a exata certeza de que se tratava de uma Cerqueira e me lembrei muito de você. Alegrei-me por vê-la. Não, Queta, certamente não era Mendes, e a mim não cabe dizer se o futuro a fará familiar ou não. Minha narrativa é de agora. Amanhã é um dia de outro autor.
Que seus anos sejam sempre lembrados pelos seus, pelos nossos, para que saibamos que, da costela de que viemos, nasceu uma flor; do barro soprado, voou uma pétala; da imagem e semelhança, ficou-nos a beleza.
Com o amor de sempre.
B.M.
sexta-feira, 13 de março de 2020
Graças
O tempo não é uma entidade cartesiana.
A trindade temporal é una, à imagem e semelhança divina, a qual nos abençoa e nos provoca ininterruptamente, a fim de que a essência dos dias seja decifrada. Ontem, hoje e amanhã são uma só história, um só espírito, não uma só matéria. A materialidade é um suporte em que (re)escrevemos nossa história. Preciso reescrever uma parte agora.
Em 2009, no texto “A banda”, prestei uma homenagem a meu tio Cesarinho, o prático, e a muitos de meus parentes que tanto admiro. Em 2011, reencontrei-os em “Samba da bênção”, no qual refaço a minha história de minha família. A intenção é sempre manter a memória viva daqueles que me (e nos) antecederam e que graças a eles e por causa deles sou (somos) hoje o que sou (somos).
Na quarta, meu tio Sebastião, o discreto, a quem já havia citado em “Silêncio e esperança”, partiu para a casa do Senhor. Ontem, após as exéquias, familiares me procuraram para relatar o desconforto que causei a um dos citados com “A banda”, de 2009. Entre nós, os Mendes, é corrente o ditado popular que “O inferno está cheio de boas intenções”, motivo esse que me leva a fazer uma reparação com um pedido de desculpas.
Acredito que o texto de 2011 citado acima não deve ser do conhecimento de todos os que conhecem o de 2009, principalmente pelo fato de o de 2009 ter ganhado vida impressa por mãos de outros. Certamente, se o de 2011 tivesse a mesma repercussão de seu antecessor, esse desconforto já teria sido superado. O fato, porém, é que não o foi, e espero que o seja agora.
Alguns de nossos traços familiares não são os mais politicamente corretos, mas não são ilegais, nem imorais, nem imortais. Podem ser mudados, tantos já o foram, alguns são mais reticentes: esse é o ciclo. Cada um de nós, os Mendes, contribui com um capítulo nessa história, que serve de apoio para um próximo, esteja ele na mesma geração, na seguinte ou naquela que ainda nem sabemos que virá. Assim é.
Desse modo, quero me desculpar publicamente pelo mal-estar que causei com meu texto e pedir a esse Mendes, também Cerqueira, que estique generosamente a mão e me busque do “inferno das boas intenções”, diferentemente da história de Lázaro e do rico, para o qual não houve salvação. Ainda há tempo, ainda há graça. As duas.
Sua história é a minha. É a nossa.
Com a admiração, o respeito e o afeto de sempre.
B.M.
domingo, 8 de março de 2020
Viva sempre
Para as Mendes Henriqueta e Mariana
Para a Cerqueira, que deveria ter sido Mendes
não importa a cor da flor, quando um coração bate por ela.
a cor do amor, esse traquina, pinta sem sequer que se sinta.
sábado, 7 de março de 2020
O momento
Há muito não cronico.
Tenho falado mais, escrito menos.
Não tenho certeza de que assim é melhor, mas é o que há para o momento.
Só o vento da noite nas patas do lobo.
sexta-feira, 6 de março de 2020
Tomara que caia
nem toda blusa sem alça é tomara que caia.
algumas são tomara que não caia.
não é piada.
é linguagem.
algumas são tomara que não caia.
não é piada.
é linguagem.
Assinar:
Postagens (Atom)
Mar de vento
"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...
-
nasceu de um adjetivo batizada substantivo. quase três décadas... muito tempo para uma vida tão repetitiva. fez história e nos marcou ...
-
Para Lúcias a verdadeira aula de arte transcende o compêndio. é uma instalação.

