terça-feira, 28 de julho de 2020

Parente sim, político sim, Mendes não



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Manoel José Soares — Natural de Minas Geraes, e nascido a 1 de março de 1829, falleceu na cidade do Rio de Janeiro, a 12 de setembro de 1893, victima de um accesso do loucura que o levou ao suicidio, sendo negociante nesta cidade, director do Banco do commercio, membro do conselho fiscal da companhia de saneamento do Rio de Janeiro e commendador da ordem da Rosa. Depois de haver representado Minas Geraes na 18ª e na 19ª legislaturas geraes, foi pela Corôa escolhido senador do lmperio em 1888, militando sempre no partido conservador. Escreveu:
Banco do Commercio, sua iniciação, fundação e installação, e narração das principaes occurrencias. Outubro, 10-1875. Rio de Janeiro, 1875, 93 pags. in-4° — Teve segunda edição no mesmo anno na typographia de Nunes Pinto & Companhia.
Discurso pronunciado na Camara dos senhores deputados na sessão de 14 de setembro de 1882. Rio de Janeiro, 1882, 55 pags. in-12º – Versa sobre assumptos do ministerio da agricultura.

BLAKE, Sacramento. Diccionario Bibliographico Brasileiro (Volume 6: Letras M-Pe). [Rio de Janeiro] : Conselho Federal de Cultura, 1970, 7 v., v. 6: 2 p. sem numeração, 405 p. Reimpressão de Off-set da edição de 1883-1902. p.144. Disponível em: https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/5451. Acesso em: 28 jul. 2020.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Nas enxovias




No município de Tamanduà erão talvez maiores os horrores praticados pelas autoridades, em virtude da suspensão de garantias. Em toda a parte as mesmas buscas, os mesmos attentados, mas na villa de Tamanduá subirão elles de ponto. Não houve ali commoção alguma, nem um passo dados pelos homens da opposição, que os compromettesse; e apezar disso, forão lançados na enxovia com grossas correntes ao pescoço 24 individuos dos mais distinctos do municipio: entre outros, estiveram por muito tempo nas enxovias, e encorrentados o deputado provincial Gregorio Luiz de Siqueira, o tenente-coronel Elias Pinto e um filho, presos no município de Pitangui, e daquela cadêa mandados para a de Tamanduá, o sargento-mór de 1ª linha Leonel de Abreu e Lima, o padre Manoel Jacintho Castor, os Carneiros, e outros proprietários abastados e homens reconhecidamente pacíficos.

Historia do movimento politico, que no anno de 1842 teve lugar na província de Minas Geraes. Escripta pelo Conego José Antonio Marinho. Segundo volume. Tio de Janeiro: Typ. Villeneuve, 1844. p.31-32. Disponível em: http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_obrasraras/or58752/or58752.pdf

terça-feira, 21 de julho de 2020

21 de julho de 1674


VASCONCELOS, Diogo de. Historia Antiga das Minas Gerais. Belo Horizonte: Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais, 1904. p.34.

Casa de Fernão Dias. Parque Estadual do Sumidouro, MG. 2020.

"[...] partias ao descobrimento das minas do sertão de S. Paulo e terras das esmeraldas."

Em 21 de julho de 1674, a bandeira de Fernão Dias (já sexagenário) partia de São Paulo rumo a Minas Gerais. Não encontrou as esmeraldas, mas não descartou um sonho sem vivê-lo.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

O papel aceita tudo

Imagem: Pixabay. Disponível https://bit.ly/2Z5uztN.

Sempre deverão existir maus escritores, pois eles atendem ao gosto das faixas de idade não desenvolvidas, imaturas; estas têm suas necessidades, tanto como as maduras.
Friedrich Nietzsche. Humano, demasiado humano, aforismo 201.

Há algumas semanas, divulguei, em minha conta no Instagram, o lançamento de meu quase livro “Eu, Testosterona”. Muito mais um exercício lúdico-editorial que propriamente um volume, produzi uma postagem “bem real”, apesar de não sê-la e também de não não sê-la. A história por trás desse quase livro foi publicada, de maneira ficcional, em meu blog e resolvi produzir uma estrutura que sustentasse todo aquele jogo textual.

Fiz a capa do quase livro a partir de um banco de imagens gratuitas na internet (Pixabay) e consegui todo o suporte visual no site adazing.com, no qual desenvolvi a capa em 3D e recebi outras peças gráficas, inclusive memes para meu quase livro. O único texto real do quase livro era o da orelha, postado no Instagram:

“Com uma linguagem moderna e vibrante, o autor apresenta a história ardente de um casal em busca da completude da vida. Com relatos apaixonados e diálogos fortes, somos chamados a vivenciar todos os percalços de dois amantes, no sentido mais amplo da palavra, que descobrem, juntos, todos os matizes do amor e do amar. Certamente, o leitor se identificará com a narrativa e reconhecerá os dilemas pessoais que todos aqueles que têm um coração preenchido por um outro eu tão vivamente experimentam. No futuro, Brutus e Bela estarão no panteão dos casais imortalizados como tantos outros da literatura universal. A narrativa de H.C. Clement, um dos nomes mais aclamados da nova geração de autores, sanguínea e penetrante, é um convite aos sentidos.”

Não resta dúvida de que essa orelha tem muitos mais recursos comerciais do que literários, além de uma boa dose de pretensão e de imodéstia. Afinal, se não for assim, como introduzir um “romance” no mercado de tantas publicações? É verdade que cheguei a vender alguns exemplares e que minhas companhias literárias mantiveram-se em silêncio, certamente sem saber o que se passava. De gêneros mais nobres ou nem tanto, respeito profundamente todos os autores, sejam escritores ou escreventes como diria Roland Barthes, porque sei que escrever não é um ato simples, nem fácil, pois exige, no mínimo, coragem.

Todo esse preâmbulo para chegar ao ponto principal deste texto: veracidade na escrita. Tive um colega de trabalho que tinha como mantra um velho ditado: “O papel aceita tudo.” Os suportes de escrita mudaram, mas essa verdade segue inabalável. A escrita a todos recebe bem, desde fake news e promessas eleitorais até informações do currículo Lattes, passando por inverdades, pós-verdades, incorreções e, no extremo, quase esquecidas, as boas e velhas mentiras. Por que boas? Toda mentira é boa. Uma mentira é ruim quando ela se apresenta como verdade.

É fácil perceber esse fato: conte uma mentira que seja extremamente falsa ou inverossímil e veja o efeito em sua audiência. A chance de haver riso é bem grande, porque a mentira “desvairada” e “cabeluda” é divertida. Conte, porém, uma mentira e a maquie, vista-a com um longo e esvoaçante vestido de verdade ou, então, um terno bem cortado, com colete e gravata de sinceridade: toda uma relação com sua audiência entrará numa zona nebulosa de dúvida e ficará estremecida; mais cedo ou mais tarde, aparecerá o dano quando a mentira for despida.

É perceptível que estamos quantitativamente em uma sociedade mais “escritora” do que estávamos há trinta anos, ainda que haja muita discussão qualitativa sobre o tema. Logo, se há mais gente escrevendo, há mais leitores? Se há mais uso da escrita, essa variedade está mais valorizada? Se há mais leitura, há mais conhecimento? Essas provocações dizem muito sobre nossos consumidores de texto (produtores ou não).

Assim, reserve-se sempre o direito da dúvida e a boa vontade da confirmação, para que toda afirmativa, nua ou explicitamente vestida, seja motivo para alegrar o dia e não para estragá-lo. Lembre-se de que o papel (celulótico ou eletrônico) aceita tudo, nós não.

Publicado originalmente no LinkedIn em 08 jul. 2020.
https://www.linkedin.com/pulse/o-papel-aceita-tudo-humberto-mendes

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Eu, Testosterona [parte 6]


– Ele é um cara que tem um passado obscuro, do qual ele tenta se esquecer, mas que constantemente bate a sua porta. Belinha é sonhadora, romântica e acredita na força do amor. Muitas pessoas não querem esse romance, mas eles vão tentá-lo com todas as forças.
– E tem cenas quentes? 
– É o que mais tem. O livro pega fogo na sua mão. 
– Nossa, eu quero esse livro. 
– É um livro para esquentar as noites frias. 
– Nossa! É do jeito que gosto. 
– Vai ser lançado em breve. 
– Quando? 
– Está quase pronto. 
– E como termina? 
– Não posso dar spoiler, senão perde a graça. 
– Ah, vai, me conta. Eu estou louca para saber. 
– É segredo. Só nas últimas páginas haverá a revelação. 
– Ah, não faz isso. Me conta!
– Eu tenho alguns finais prontos, mas não sei qual vou usar. Pode ser até que escreva uma continuação do livro, alguma coisa tipo uma trilogia.
– Nossa! 
– Vai depender da aceitação do público leitor. 
– Nossa! E você já tem uma editora? 
– Tenho sim. Vai sair pela Pedkouv, a editora dos grandes talos. 
– Nunca ouvi falar! 
– É uma editora especializada, que tem 9 na lista dos 10 livros mais vendidos. É uma das maiores do mercado nesse segmento e tem uma ótima relação com autores.
– Vou pesquisar. Mas, e meu livro? 
– Comece a colocar suas ideias no papel. 
– Não é meu perfil, sabe? Escrever é muito devagar, eu prefiro navegar e produzir na cabeça, que é muito mais rápido.
– Para ser uma escritora, você vai precisar “escrever”.
– Vou procurar alguém para me ajudar. 
– É uma boa ideia. 
– E seu livro? 
– Espero terminá-lo logo, porque já está queimando minhas mãos, assim como esse celular.
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Notas:
*Capa produzida com imagem da Pixabay.
**Em virtude da pandemia de COVID-19, a quase venda ocorrerá apenas em formato eletrônico, nos principais players do mercado.
*** Outras informações pelo Instagram: humberto_mendes_

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Eu, Testosterona [parte 5]

– Lá vai: “Então ele me pegou e me beijou.”
[Silêncio]
– Ponto-final?
– Sim. Grandioso assim. O que achou?
– É...
– É o quê?
– É... "impactante".
– Eu sabia. Todo mundo vai gostar.
– Vai... Vai sim...
– Então seu romance vai ser em primeira pessoa?
– Vai, vai sim. Então, você vai me ajudar?
– Desculpe, mas... fiquei tão impactado com o fim que me perdi. O que você quer mesmo que eu faça?
– Que escreva minha história para mim!
– Quer que eu escreva? 
– Sim, isso. Não existe a função de ghost writer? Então, queria que você fosse o meu.
– Desculpe, Anastásia, mas não faço esse trabalho.
– Você vai perder essa chance de ficar famoso e ganhar dinheiro? Não acredito que não quer!
– Não trabalho como ghost writer.
– Talvez seja a hora de começar. Você tem talento! Eu ajudo você.
– Você me “ajuda”?
– Claro. Só não posso colocar seu nome no livro porque a ideia foi só minha.
– Ah, claro.
– Então?
– Infelizmente tenho que confessar que não posso ajudar você porque estou escrevendo um livro sobre um grande romance. 
– Não acredito!
– Sim, estou. Já tenho o título, as personagens, o enredo e muitas páginas escritas.
– Mentira! Jura?
– É verdade, e vou contar para você em primeira mão!
– Ah, não! Não me fala isso.
– O livro se chama “Eu, Testosterona” e conta a história de Brutus, um homem forte, másculo e viril que se apaixona pela meiga Bela, uma jovem linda e ingênua. Só que Brutus tem um segredo guardado a sete chaves, que, se for descoberto, acabará com todas as chances de felicidade dele.
– Nossa!
– Brutus é um homem irresistível.
– Meu Deus!
– Isso mesmo! Um deus grego com uma pegada moderna: jovem, veloz e furioso.
– Nossa! 

terça-feira, 23 de junho de 2020

Eu, Testosterona [parte 4]

– [Não devia perguntar, mas não resisti] Você pode ler para mim essa frase? 
– Acho melhor não. 
– Por quê? Se você quer minha ajuda, eu preciso saber o desfecho. 
[Silêncio] 
– É, acho que você tem razão. Vou pegar. 
– Tá bom. 
Alguns segundos depois: 
– Vou ler, tá? 
– Tá bom. 
– É algo impactante, assim, avassalador, para que o leitor saia deslumbrado com o livro. 
– Claro, assim deve ser. 
– Não queria nada muito óbvio. 
– Sim. 
– Nada clichê. 
– Você está certa.
– Pensei em algo que o leitor quisesse decorar, que o fizesse querer ler o livro de novo só por essa frase.
– Entendo.
– Alguma coisa que mexesse com o sentimento dos homens e o desejo das mulheres. 
– Tá. 
– Que tivesse uma pegada moderna. 
– Hunrum. 
– Sabe, uma “pegada” forte! 
– Sei. 
– Um misto de amor e paixão. 
– Hunrum. 
– Demorei muito para escrever isso. 
– Hunrum. 
[Silêncio] 
– Então, vou ler: 
[Silêncio]

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Eu, Testosterona [parte 3]

[Silêncio] 
– E o que mais?
– Queria que você me ajudasse com as construções, que me desse umas dicas sobre a melhor forma de narrar, sobre as vírgulas, sobre as personagens.
– Bem, tenho que lhe dizer que o que você deseja precisaria ter sido pensado antes do texto estar pronto, pois agora o trabalho será enorme para fazer isso.
– Não se preocupe, isso é simples. 
– Você usou esse mesmo método nos outros livros? 
– Não, não. 
– Como fez nos outros? 
– Foi inspiração. Tive uma ideia e escrevi. 
– E o trabalho com a língua? 
– Ainda não foi feito. 
– Então você escolheu começar por esse? 
– Sim. 
– Você tem inúmeras páginas escritas que precisam ser avaliadas, é isso? 
– Ah, não são "inúmeras". 
– É um livro pequeno, então? Na verdade, um conto. 
– Não, não, não é um conto! É um livro mesmo. 
– Quantas páginas ele tem? 
– Não muitas. 
– Me diga quantas são. 
– Huljileopnbertyad 
– Desculpe. Não entendi. 
– Bgtradoleuncte. 
– A ligação ficou péssima. Não consegui entender. 
– Estou mudando de lugar. Melhorou? 
– Sim, agora sim. Quantas são? 
– Então, na verdade... Bem, na verdade, eu queria sua ajuda na redação do livro. 
– Para escrever o livro? 
– É isso. Isso mesmo. 
– Você não tem nada escrito, então? 
– Não, não, tenho. 
– Você só tem a história? 
– Não, não, claro que não! O livro está pronto na minha cabeça. 
– Ah, sim, na sua cabeça. Só falta passar para o papel. 
– É isso! Sabia que você ia me entender. 
– Quanto você já escreveu? 
– O mais importante. 
– Que é? 
– O fim. 
– Você tem o capítulo final. 
– Quase... 
– Quase como? 
– É... quer dizer, eu tenho o fechamento, a frase final. 
– A frase?
– Isso, a frase. O fechamento do romance, a chave de ouro, o ponto alto de toda uma história de amor.

domingo, 21 de junho de 2020

Eu, Testosterona [parte 2]

– Anastácia? 
– Não, Anastácia não. Pelo amor de Deus! Anastásia! 
– Me desculpe, Anastásia. 
– Tudo bem. 
– Seu nome me é familiar. 
– Deve ser impressão sua, porque eu não conheço outra. 
– É... pode ser mesmo. Mas, então, do que você precisa? 
– Eu preciso da revisão de meu novo romance. 
– Está pronto? 
– Sim, está. 
– Qual é o título? 
– Ainda não defini. Estou em dúvida. 
– Me fale do que ele trata então. 
– É um romance “romance”. 
– Uma história romântica, você quer dizer? 
– Não exatamente romântica, mas picantemente romântica. 
– Me fale mais. 
– É a história de um homem e uma mulher que se apaixonam intensamente. 
[Silêncio] 
– Sim, e o que mais? 
– Que vivem loucuras na cama. 
[Silêncio] 
– E? 
– Basicamente, é isso. 
[Novo silêncio] 
– Você já publicou outros livros, pelo que entendi. 
– Publicar, publicar não... mas já escrevi. 
– Então esse vai ser seu primeiro livro. 
– Publicado sim. O primeiro de muitos. 
– Claro, não tenho dúvida. 
– Tenho certeza que fará muito sucesso. 
– Isso é ótimo. 
– Eu queria que você me ajudasse nesse livro. 
– Você deseja a revisão do texto e uma ajuda no título? 
– É, mas alguns conselhos e dicas também. 
– Dicas para? 
– Escrever também.

sábado, 20 de junho de 2020

Eu, Testosterona [parte 1]

Baseado em fatos quase reais

Numa manhã de sábado, numa chamada de celular com número não identificado:
– Alô!
– Alô! Bom dia.
– Bom dia.
– Você é revisor de textos, não é?
– Sim, sou.
– Quem me indicou você foi uma amiga minha que já trabalhou com você.
– Ah, que bom! Agradeço a atenção.
– Você também redige, né?
– Em que sentido você está dizendo?
– No sentido de escrever mesmo, de produzir textos.
– Sim, escrevo, mas nada profissional.
– Você tem um blog, né?
– Sim, tenho. Você conhece?
– Sim, gosto muito. Você escreve bem.
– Obrigado. Fico feliz que goste.
– Leio sempre.
– Que bom!
– Então, eu estava querendo a revisão de um texto.
– Que tipo de texto?
– É um texto grande, mas não está difícil de revisar.
– Que ótimo! Você é da área de Letras?
– Não, não. Por que você pergunta?
– Porque você já avaliou seu texto como fácil de revisar. Isso é coisa de gente da área ou de autor de livro.
– É isso! Sou autora de livro.
– Ah, que bom! Gosto de conversar com autores.
– Escrevo livros.
– Você ainda não me disse seu nome, autora. Qual seu nome?
– Desculpe. Não me apresentei, né? Anastásia.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

A hora da mula

Fonte da imagem: https://bit.ly/3dyNz8T
Para ouvir este texto, clique aqui.

Dona Amélia,

Há muito tempo não nos falamos e, há poucos dias, quando surgiu a oportunidade de jantarmos juntos e então conversar, a sra. se sentiu “indisposta” e se retirou da mesa. Não a recrimino, pois eu também me sentiria “indisposto”. Sentar-se à mesa é compartilhar, e partilhar com é uma atitude para a qual precisamos de empatia e estômago. Sem a primeira, o segundo será vazio. Sem o segundo, não há a primeira. 

Já se vão longos anos desde que conversávamos com o Sr. Petão, o almocreve, e ele noz dizia do ofício de guiar mulas de um lado para o outro. A senhora deve se lembrar que ele ficou nos devendo a história de uma mulinha, uma que era bastante diferente das demais, muito lampeira e cheia de miçangas. Naquela ocasião, ele atrasado, desculpou-se por deixar a senhora à janela justificando a demora pela perda do texto original. Pois é, Dona Amélia, esse texto foi achado. 

É interessante observar que, quando tudo parecia perdido, uma luz breve piscou e, no seu rastro, sem pressa, o texto reapareceu. O Sr. Petão ficou alegre demais, sem palavras para explicar o que sentia, nem como o texto havia sumido e reaparecido. Ele me disse que, ao encontrar o original, um desejo de completá-lo e publicá-lo tomou conta dele, mas só no início. À medida que lia, a história daquela mulinha perdia o encanto, enfoscava-se, tornava-se uma piada sem graça, que nem a ele mais fazia rir. Aquela mula, Daquelinha, completara sua jornada com ele e partira com uma nova tropa, num novo caminho. 

A outra mula, a toda branca e de crina quase loira, sumiu, ninguém sabe, ninguém viu, e o próprio Sr. Petão tem dificuldades de dizer alguma coisa sobre ela. Penso que morreu antes mesmo de nascer e não fará falta. Que ela descanse em paz no cemitério das ilusões, para onde vão todas as insignificâncias. 

Toda essa volta, Dona Amélia, e a citação do Sr. Petão são para dizer que as mulas me ensinaram muito nesses anos todos. Tocando a tropa ao lado do almocreve, percebi que o verso de Augusto dos Anjos, 

“O homem, que, nesta terra miserável, 
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.”

é a epígrafe de quem fui e o epitáfio de quem quero ser. As mulas têm o meu respeito, mas, se viver entre elas, é inevitavelmente ser uma delas, então adeus.

Da próxima vez que estivermos juntos, Dona Amélia, para jantar ou não, a mesa estará posta, a toalha branca, e sentaremos juntos, para que eu possa dizer-lhe o que ainda não ouviu. Peço que tenha paciência com meu relato e me conceda a boa vontade da compaixão, que é do que precisa uma mula desgarrada da tropa. Também quero ouvi-la e saber o que sentiu e o que sente, quais foram as dores que minha andadura causou na senhora e que marcas minhas ferraduras infligiram ao caminho.

Se ao final de nossa conversa, ainda estiver “indisposta”, fique à vontade para se levantar e deixar a mesa. Se isso acontecer, saberei que nós dois, de mãos separadas, sairemos não felizes, mas coligados. Se conseguir aceitar meu pedido de desculpas e entender minhas palavras zurradas, será nossa comunhão.

Com o carinho e o respeito.

B.M.

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...