sábado, 11 de julho de 2009

Dos vivos - parte 1

Deitado em sua cama observava o teto. Uma aranha deslizava silenciosa pelas paredes, ao contrário das vozes que vinham do lado de fora de sua morada. Mulheres choravam, crianças corriam inocentes e homens praguejavam. Era sempre assim. A cada novo vizinho uma nova comitiva, mas sempre o mesmo ritual.

O alto da colina era seu endereço, justificando-se assim a posição privilegiada para a observação dos cortejos. Havia se mudado para lá há pouco tempo, pouco mais de alguns meses, mas já se sentia em casa. “O que não tem remédio, remediado está”, pensava ele.

Porém, nas últimas semanas, conversas começavam a incomodá-lo bastante. Não gostava do que ouvia e esperava que algum vizinho tomasse a iniciativa de se manifestar. Silêncio. Aliás, silencioso era um bom adjetivo para aquele local e para aqueles vizinhos. Ele não sabia o nome do vizinho ao lado e o vizinho também não o conhecia; não sabia se o condomínio estava pago em dia ou atrasado, se eram famílias ou solitários, se havia crianças ou cães, se eram dali ou de outras cidades, se eram antigos moradores ou recém-chegados. Muitos, até, se orgulhavam dessa condição insular em que viviam, não pensando na perda de seu valioso tempo com vizinhos (e tempo era algo que não faltava naquele conjunto habitacional).

Pensava no que ouvia e no silêncio dos vizinhos. Não fariam nada? Não, isso não poderia ficar do jeito que estava. Levantou-se, subiu os sete andares e começou a bater de porta em porta, convocando os vizinhos para uma reunião.

– Saiam, vamos! Saiam todos! Precisamos conversar!

Um ou outro morador apareceu à porta.

– Vamos, ajudem a chamar os outros! Precisamos tomar uma atitude sobre o que têm dito de nós!

– Dito o quê? Eles quem? – indagou um senhor de idade avançada.

– O senhor não tem ouvido os comentários? Em que mundo está vivendo?

O velho ficou mudo. Outros ajudaram na convocação dos demais. Aos poucos, surgiam e se aglomeravam próximo à casa do convocador; estavam em número aproximado de cinqüenta.

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