Ao ouvir isso, se transformou. O pranto foi esquecido e com voz energética se dirigiu ao interlocutor:
– Capitão? Desde quando perdi minha patente? Você não tem juízo? Em outros tempos eu mandaria prender você por desacato à autoridade, moleque! Capitão, não! Tenente!
– Desculpe, capitão.
Risos.
– Moleque atrevido! Se não fosse o meu anel... – rolavam as lágrimas.
– O que aconteceu, Tenente? – perguntou uma senhora, comovida pelas lágrimas.
– O anel, meu anel de tantas histórias, de tantas lembranças, que pedi que viesse comigo à morada eterna, está encravado em minha mão e não posso tirá-lo. E pior, também não posso carregá-lo comigo.
– O senhor não poderia reclamar: e eu que estou nu há vários anos, desde o dia que assaltaram minha sepultura e levaram minhas roupas?
– Pois vocês ainda estão melhores do que eu, que estou “morando” com minha sogra! Fiquei tão feliz quando ela veio para cá, mas para minha infelicidade... aqui estou!
– Todos vocês! Por favor! Um minuto de atenção. – pediu Horácio.
Alguns cochichos e risadas foram suprimidos para dar voz a Horácio.
– Eu não conheço todos vocês, nem vocês me conhecem. Mas quero mostrar uma verdade para todos: nós estamos mortos! Mortos! Como tais, devemos esquecer aqueles valores que tínhamos em vida.
Vaias e assobios.
– Por favor, deixem que eu continue. Durante a vida, cultivamos valores que nada nos acrescentam, mas nos apegamos tanto a eles que, mesmo mortos, continuam conosco. De que vale todo o ouro que reunimos durante a vida, se nela não pudermos usufruí-lo? Vejamos o exemplo do Tenente: o anel de tantas histórias e de tanto apreço, tão próximo e tão distante.
Continuou Horácio:
– De que vale toda nossa vaidade de beleza, de estética, de cosméticos e de roupas se aqui estamos todos com o mesmo “uniforme”?
– Peraí, Horácio. Quer dizer que o senhor acha que não devemos nos preocupar com nossa beleza durante a vida? Discordo totalmente.
– Eu também quero me manifestar – disse uma mulher mais encorpada – A fulana da quadra ao lado quando chegou estava toda pintada: esmalte, sombras, batom, bijuterias,...
– Calma aí, que a fulana tem nome. Meu nome é Alzira e bijuteria, não. Jóia, viu! Jóia! Ouro! E pintada estava...
– Calma, gente – interrompeu Horácio – Deixem-me falar. Como dizia, eu não disse sobre a vida,...
– Armindo.
– Eu não disse isso, Armindo. É importante nos preocuparmos com a nossa aparência durante a vida, mas não a um ponto que ela se torne nosso objetivo principal. Quem não gosta de boas roupas e bons perfumes? Mas tudo que é demais é muito.
– Papo furado! - gritou Amadeu.
– Você, Amadeu, está impregnado de valores humanos. Tem preconceito quanto à condição social, não aceita os diferentes de você e mais, numa atitude estúpida, propôs que nos reuníssemos e que invadíssemos outros cemitérios. Só uma besta faria isso!
Mais risos.
– Ofender, não! Besta é você!
– Besta, sim! Você está morto. De idiotas já chegam muitos vivos que estão por aí! Seja por política, por religião ou até mesmo por futebol, os vivos brigam e matam uns aos outros. Pura ignorância!
– Eu não tenho paciência para ouvir sermão depois de morto. Para mim ouvir em vida já era difícil, depois de morto nem pensar.
– “Para mim ouvir”? Desssde quando “mim” faz alguma coisa? – comentou uma mulher.
– Ninica! Só podia ser você mesma! Já era chata em vida, depois de morta então... insuportável! Os alunos fugiam de suas aulas e você, tonta, se indagava por quê. SSSSaco!
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