terça-feira, 14 de julho de 2009

Dos vivos - parte 4

– Eu esssstava em silêncio, mas não pude deixar de me ofender com o “pra mim fazer”. Você fugiu da esssscola, idiota? Eu detessssto gente esssstúpida.
– É por isso que você não se olha no espelho?
Risos.
– Se é “para eu fazer” ou “para mim fazer”, agora não vem ao caso. Isso aqui não é uma aula de Português! Eu falo do jeito que eu quiser.
– Idiota! – retrucou ela.
– Eu quero saber quem está comigo! – gritou Amadeu, encerrando a discussão.
Fez-se silêncio e alguns levantaram os braços.
– São poucos, mas são leais. Têm brio e vergonha na cara! Não são como muitos que falam muito e não fazem nada.
– Quando eu morri, depois de muito sofrer, acreditei que iria para o descanso eterno. Mas estou vendo agora que fui enganado. Vocês são muitos chatos! Me deixem em paz! – falou um velho de cabeleira branca e olhos fundos.
– É por causa da bestialidade de pessoas como você, Amadeu, que estamos sempre recebendo mais e mais vizinhos. Deixemos os adjetivos para os vivos, não sejamos tão tolos como eles.
– E os outros cemitérios? O que os moradores de lá estarão pensando e falando de nós?
– Eu quero falar – aproximou-se um índio, carcomido pelo tempo.
Abriu-se um círculo entre eles e ele começou:
– Há muito tempo eu estou aqui. Muito tempo mesmo. Muito antes de vocês chegarem. Muito antes de vocês construírem essa cidade dos mortos. Eu já estava aqui. Vi muita gente chegando. Vi muita gente partindo. Vi tudo isso. Vi muito mais.
Fez a pausa para a respiração, mesmo sem precisar.
– Vi guerras. Participei de lutas. Vi pessoas morrendo. Matei inimigos. Estou aqui. Vi muito. Aprendi um pouco. Você disse das outras cidades dos mortos. Quantas cidades dos mortos há espalhadas sem ninguém dizer nada delas?
– Aonde você quer chegar, índio?
– Já cheguei. O velho já chegou também – apontando para Horácio.
– Me diga, ande!
– Você está morto. Mas carrega um vivo dentro de você. Não se preocupe com os outros. Gaste sua preocupação com você. Deixe essas bobagens para os vivos. Você sabe o que é veleidade?
– Não, não sei. O que é?
Olhou-o no fundo dos olhos, fez uma reverência e se retirou do círculo.
– Até um índio está querendo me ensinar. É demais!
– Ouça o que o velho índio falou, Amadeu. Daqui a pouco você vai querer invadir um cemitério do outro lado do mundo, em troca de uma desculpa esfarrapada: para libertar aqueles mortos ou para assegurar a paz entre os cemitérios.
– Tolices!
– Tolo é você! – gritou uma voz entre eles.
Outras vozes surgiram, engrossando o coro contra Amadeu.
– Estou pensando em nós, não apenas em mim!
Mais vaias.
– Vocês são uns idiotas! Vão se arrepender disso!
– Cale a boca, falastrão!
– Por hora, volto para minha morada. Voltarei! Aguardem!
Amadeu antes de voltar ao sétimo andar, parou e observou atentamente sua lápide. Simples, com escritos simples, mas com um erro que o irritava profundamente. Leu em voz alta:
– Aqui jaz Amadeus da Consolação. Amadeus...

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