domingo, 12 de julho de 2009

Dos vivos - parte 2

– Esperei durante semanas para ver se alguém faria alguma coisa sobre o assunto. Mas nada. Nem uma só palavra de repúdio! Nem um palavrão para desobstruir o silêncio e lavar a alma! Nada!
Observava as reações e prosseguia:
– Todos os dias, novas pessoas têm chegado, se mudado para cá. A cada nova mudança, sempre as mesmas histórias: “Que cemitério pobre!”, “Esse cemitério, perto do do Bonfim, não é nada. O Bonfim é muito mais assustador!”, “Aqui só deve ter pobre. Olha como as sepulturas são simples”, “Bem feito. Depois de tudo que fez na vida, ser enterrado nesse fim de mundo”.
– “Eu prefiro o da Colina”, “O Renascer é...”, “O da Saudade tem a melhor vista”.
– O quê? Eles dizem que aqui só tem pobre?
– Nunca ouviu? Não é só isso, mas também que o da Paz é o melhor localizado porque está ao lado de um shopping.
– Passei a vida inteira trabalhando duro, economizando tudo o que era possível e agora eles vêm dizer que aqui só tem pobre? À merda para eles!
– Pois é isso, minha gente! Todos aqui devem já ter ouvido alguma coisa desse tipo...
– “O Bosque da Esperança é maravilhoso”.
– Isso mesmo. Por comentários como esse é que resolvi convocar essa reunião. É preciso dar um basta nessas maledicências.
Apenas um garoto soltou um “apoiado”.
– Ninguém tem nada a dizer?
– Eu tenho – interpelou um homem.
Aproximou-se:
– Quais são suas idéias?
– Meu plano é atormentar as pessoas que vêm aqui. Se a cada cortejo mostrarmos nossa força, em breve essas “historietas” atuais sumirão.
– Mostrarmos nossa força como?
– Assustando as pessoas. Apagando velas, levantando saias, gritando, causando calafrios, arrastando correntes e outras idéias que possam surgir.
– Você pode fazer isso?
– Nós podemos. Todos nós, juntos.
– Você já tentou?
– Ainda não, mas podemos começar agora mesmo.
Silêncio novamente.
– Outra coisa: proponho que façamos uma comitiva para irmos aos outros cemitérios e mostrarmos a eles que não estamos “mortos”. Que não somos um “cachorro morto”!
– Desculpe, garoto, eu não sei seu nome – disse o homem.
– Amadeu.
– Amadeu, eu já estou aqui há muito tempo. Não sei há quanto tempo você chegou, mas eu gostaria de lembrar uma coisa a você: Você está morto!
– Desculpe, senhor, mas eu não sei o seu nome – disse Amadeu.
– Horácio.
– Horácio, se o senhor não me avisasse, eu não sei o que seria de mim.
Risos.
– É claro que eu sei que estou morto. Estou morto, mas não incapacitado. Sei muito bem o que posso.
– Amadeu, se sabe que está morto, por que continua com o discurso de um vivo?
Risos novamente. Um grito ecoa entre eles.
– Ai, meu Deus! Meus dentes! Onde estão meus dentes?
– Está vendo, Amadeu? Isso é a prova do discurso de um vivo. Ela voltará à sepultura e verá os dentes todos lá, mas não poderá pegá-los.
– Tolice! Podemos fazer alguma coisa, sim.
Outro grito:
– Meu anel! Onde está meu anel? Estava comigo e agora não está. Será que caiu enquanto subia? Vou descer e olhar. – foram as palavras de um homem em um uniforme militar.
– Anel? De ouro? Quer ajuda? – ofereceu-se outro.
Iniciou-se uma pequena discussão, interrompida segundos depois pelo pranto do militar.
– Meu anel! – dizia apenas isso e rolavam as lágrimas.
– O que foi, capitão?

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