Dona Quiméria pulou da cama às 4h, no mais estrondoso silêncio. Luisinho abriu um olho, acionou o focinho, sentiu o cheiro do dia, abriu o outro olho, se ergueu, cumprimentou alegremente a técnica e rumou ao quintal para as abluções matinais.
Nenhum galo cantou.
O sol se mantinha apagado.
A água fervendo na chaleira puxou a primeira canção do dia.
Esfrega, torce, bate, molha, enxágua.
Para, olha. Começa de novo.
Esfrega, torce, bate, molha, enxágua.
Pronto. No varal.
A fumaça do café, a lata de biscoito, o afago no cão.
A escova no cabelo, o perfume do dia e o manto de festa.
Saiu de casa com o pé direito, pôs a mão no chão, fez o "nome-do-pai", beijou a medalhinha e partiu.
Na rua ainda escura, ao lado de Luisinho, Dona Quiméria disse:
- Tá cedo, minino, má hoje nóis pricisa de trabaiá muito e Deus só abençoa quem trabaia muito, quem começa cedo com os serviço e as reza. Vem aqui, deixa eu vê seu coraçãozinho.
Segurou Luisinho e auscultou a emoção da massa.
- Tá bão, Luizim. Fica tranquilo, tá? Hoje é um dia daquel's e nóis vão pricisá de todo povo atleticano junto. Quando o Chicão chegá, dá passage. Deixa ele assumi o jogo. Nós vamu pricisa dimais dele.
O cão olhava atentamente as palavras que Dona Quiméria desenhava enquanto cortavam a avenida.
***
O dia escuro encontrará, em breve, o dia claro. É muito cedo ainda, mas fé e paixão não têm hora.
O jogo já começou.
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