sábado, 21 de maio de 2016

O riso

Hoje eu só quero rir. Digo mais, hoje eu só posso rir. Todos nós somos engraçados e cômicos. Observo outras pessoas e vejo o quanto são ridículos os atos que também eu repito. Rio. Rio muito porque a vida, a rotina diária, tenta ser séria. No fundo, essa seriedade nada mais é que a face mais cômica e divertida da nossa sociedade. Todos representam tantos papéis que chegam a ser idiotas de tentarem ser eles mesmos. Eu rio deles. Eles riem de mim. Eu também sou mais um idiota entre tantos. Sirvo de matéria-prima para a gargalhada alheia. Tudo bem, não faz mal. Quando riem de mim, eu rio deles porque eles não entendem que rindo de mim fornecem-me argumentos para rir deles. Torna-se um ciclo. Um processo repetitivo sem fim. Aí eu acho mais graça e rio mais ainda. Eu rio sozinho e chego a rir até de mim mesmo, quando vejo o que faço. Sou repetitivo e previsível, e isso é muito chato. Na verdade, todos são assim. Quando alguém propõe algo diferente, todos riem por ele ser tão estúpido de dizer o que pensa. Eu rio daqueles que riem dele por serem tão idiotas. Eles riem de mim porque aquele idiota encontrou outro idiota para acreditar nele. E eu volto a rir deles porque, na verdade, nem sempre, acredito naquele idiota, apenas aceito o direito de ele pensar o que achar melhor. O idiota ri de todos nós por não acreditarmos nele. Ri de ser considerado idiota. Ri de tudo e de todos. E Deus, do alto de sua onipotência e onipresença, ri de todos nós humanos. Deve dizer entre os anjos: "Eu os criei, mas são uns tolos."
Rimos de Deus à medida que rimos de sua criação. Rimos dele e ele ri de nós. Quando Deus chamar alguns para rirem junto dele, alguns de nós que ficarmos desafinaremos a melodia. Choraremos. Quando nascemos, todos riam e só nós chorávamos; quando morrermos, partiremos rindo, e alguns chorarão.
Ria.

*Texto originalmente publicado em 1996.

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