Certa vez, o Vampeta se referiu ao Sorín, jogador argentino
que atuava pelo Cruzeiro, como um peladeiro no bom sentido. Esse comentário
surgiu pela flutuação de Sorín dentro de campo, muitas vezes não guardando sua
posição e aparecendo como elemento surpresa em jogadas de ataque.
Por que o peladeiro, inicialmente, pode ofender? Neste
momento de politicamente correto, qualquer adjetivo pode causar mal-estar,
ainda que grande parte dos torcedores de qualquer equipe já tenha vivenciado
essa experiência mítica chamada “pelada”. Quem já foi peladeiro sabe que nem
toda pelada é uma pelada, e há peladas fabulosas eternizadas na memória de cada
bola de várzea.
O peladeiro não precisa de uniforme, e talvez o fato de “não
precisar” de indumentária tenha contribuído na etimologia do termo. O “peladão”
e a “peladinha” são variantes essenciais para a compreensão desse fenômeno
sociológico, não necessariamente para o bem, nem para o mal. Tal como magia,
não há boa ou má, apenas a maneira como você a vê e participa dela definem o
valor da pelada.
A pelada é uma instituição nacional, tal como a feijoada, a
cerveja, a bunda e o palavrão. Nesse quinteto, há a explicação de quem somos e
de por que somos. Avalie a pelada como um simulacro da vida brasileira
cotidiana média e verá como o brasileiro é um peladeiro em essência: não tem
posição fixa no contexto do jogo, não carrega escudo no peito, muitas vezes não
tem os itens necessários para a pelada ou os tem em estado de miséria, não há
questões de religião, de partido político, de cor, e a qualquer tempo a posição
pode mudar.
Depois dos fatídicos 7x1, a dúvida se o futebol brasileiro
está em crise se condensou no “meio do futebol”. Se há crise, parte dela passa
pela falta de peladeiros. Hoje, há uma enxurrada de jogadores que só jogam em
uma posição, não sabem atuar em outros espaços do campo e preferem o banco a
uma improvisação. Muitos desses, para piorar, são medianos ou fracos (“O
futebol é uma bênção”[1]) e se firmam em
alguma equipe graças à for$a do empresário.
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