Insinuei que deveria ser muitíssimo longe; mas o avestruz não me entendeu ou não me ouviu, se é que não fingiu uma dessas coisas. Pela minha parte, fechei os olhos e deixei-me ir à ventura. Já agora não se me dá de confessar que sentia umas tais ou quais cócegas de curiosidade, por saber onde ficava a origem dos séculos, se era tão misteriosa como a origem do Nilo, e sobretudo se valia alguma coisa mais ou menos do que a consumação dos mesmos séculos, tudo isso reflexões de um cérebro enfermo. Como ia de olhos fechados, não via o caminho; lembro-me só de que a sensação de frio aumentava com a jornada, e que chegou uma ocasião em que me pareceu entrar na região dos gelos eternos. Com efeito, abri os olhos e vi que o meu animal galopava numa planície árida, com um sol branco ao meio do céu, com uma ou outra árvore retorcida.
Tudo imóvel; só nós galopávamos. Tentei falar, mas apenas pude grunhir esta pergunta ansiosa:
– Onde estamos?
– Já passamos o Éden.
– Bem; paremos na arca de Noé.
– Mas se nós caminhamos para trás! – redarguiu motejando a minha cavalgadura.
Fiquei vexado e aturdido. A jornada entrou a parecer-me enfadonha e extravagante, o frio incômodo, a condução violenta, e o resultado impalpável. E depois – cogitações de enfermo – dado que chegássemos ao fim indicado, não era impossível que os séculos, irritados com lhes devassarem a origem, me esmagassem entre as unhas que deviam ser tão seculares como eles. Enquanto assim pensava, íamos devorando caminho, e a aquela gélida aridez voava debaixo dos nossos pés, até que o animal estacou, e pude olhar mais tranquilamente em torno de mim.
Olhar somente; nada vi, além do imenso sem-fim, que desta vez invadira o próprio céu, até ali albamente amarelado. Talvez, a espaços, me aparecia uma ou outra árvore, sem tamanho, brutesca, meneando ao vento suas galhas aquilinas.
O silêncio daquela região era igual ao do sepulcro: dissera-se que a vida das coisas ficara estúpida diante do homem.
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