terça-feira, 13 de setembro de 2011

Delírio (XI)

Meu olhar, enfarado e distraído, viu enfim chegar o século presente, e atrás dele os futuros. Aquele vinha ágil, destro, vibrante, cheio de si, um pouco difuso, audaz, sabedor, mas ao cabo tão miserável como os primeiros, e assim passou e assim passaram os outros, com a mesma rapidez e igual monotonia. Redobrei de atenção; fitei a vista; ia enfim ver o último, o último!; mas então já a rapidez da marcha era tal, que escapava a toda a compreensão; ao pé dela o relâmpago seria um século. Talvez por isso entraram os objetos a trocarem-se; uns cresceram, outros minguaram, outros perderam-se no ambiente; um nevoeiro cobriu tudo...
Nesse momento, ainda havia palavra: as vozes de meus companheiros que conversavam entre si. Uma felicidade ansiosa tomou conta de mim e fez com que eu me apalpasse buscando papel e caneta.
– Aquieta, primo. As palavras não já fazem mais carreiras. Estão só. Pingado de ideia.
– É o devir – disse o Fidalgo.
– É hora de trocar de montaria – e Jorge me tocou o braço.
– E o capítulo VIII? – disse eu.

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