terça-feira, 6 de setembro de 2011

Delírio(IV)

Pouco à frente naquela imensidão do nada, surgiu novo vulto montado. Esse cavaleiro não corria, ao contrário, trotava galante e altivo. Olhar fixo no não-horizonte, em uma das mãos uma lança medieva e, na outro, um escudo esférico. O bigode e a lucidez da face iluminavam aquele fidalgo.
– Enfim, chegastes. Não era sem tempo.
Olhou curioso para minha montaria e não conteve o muxoxo ao imaginar aquele protótipo de cavaleiro em batalha. O cavalo relinchou, tal como uma risada dos tempos.
– Rocinante, não ria de estranhos na frente deles!
O cavalo, então, virou risonhamente o rosto.
–Seu cavalo fala? – indaguei.
– Apenas em bom castelhano – e o cavalo relinchou novamente.
Um sorriso escorreu pelos lábios do Fidalgo.
– Se acá estivesse Dulcinéia, certamente não esconderia seus alvos dentes diante dessa quixotesca montaria.
Ajeitou a armadura, sussurrou algo ao cavalo e nos disse:
– Partamos, pois a vida é uma donzela em perigo que nos pede socorro, e a morte é um socorro que nos pede em perigo uma donzela.
O primeiro cavaleiro soltou um grito e o tropel partiu na embolada. Ainda que estivéssemos em diferentes velocidades, seguíamos lado a lado, parelhos. As cantigas de Siruiz voavam pela boca do primeiro cavaleiro, enquanto histórias cavaleirescas grafavam os bigodes do segundo. Da minha parte, silêncio e solidão.

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