–Entendeste-me? – disse ele.
–Por que estamos aqui?
–Somos tua essência e, agora que sentes o cheiro do sepulcro, partiremos contigo. É o fim.
Quando esta palavra ecoou, como um trovão, naquele imenso vale, afigurou-se-me que era o último som que chegava a meus ouvidos; pareceu-me sentir a decomposição súbita de mim mesmo. Então, encarei-os com olhos súplices, e pedi mais alguns anos.
–Pobre minuto! – exclamou Jorge. – Para que queres tu mais alguns instantes de vida? Para devorar e seres devorado depois? Não estás farto do espetáculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei menos torpe ou menos aflitivo: o alvor do dia, a melancolia da tarde, a quietação da noite, os aspectos da terra, o sono, enfim, o maior benefício das minhas mãos. Que mais queres tu, sublime idiota?
–Viver somente, não peço mais nada. Quem me pôs no coração este amor da vida, senão vocês? e, se eu amo a vida, por que precisam golpeá-la, matando-nos?
– Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem. O minuto que vem é forte, jucundo, supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o outro, mas o tempo subsiste.
A onça mata o novilho porque o raciocínio da onça é que ela deve viver, e se o novilho é tenro tanto melhor: eis o estatuto universal. Sobe e olha.
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