quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Delírio (VI)

Ao ouvir esta última palavra, recuei um pouco, tomado de susto. Soltaram uma gargalhada, que produziu em torno de nós o efeito de um tufão; as plantas torceram-se e um longo gemido quebrou a mudez das coisas externas.

– Não te assustes, disse Jorge, o dragão está morto. Vives: não quero outro flagelo.

– Vivo? – perguntei eu, enterrando as unhas nas mãos, como para certificar-me da existência.

– Sim, meu jovem, tu vives. Não receies perder esse andrajo que é teu orgulho; provarás ainda, por algumas horas, o pão da dor e o vinho da miséria. Vives: agora mesmo que ensandeceste, vives; e se a tua consciência reouver um instante de sagacidade, tu dirás que queres viver.

Em seguida, o Fidalgo estendeu o braço, segurou-me pelos cabelos e levantou-me ao ar, como se fora uma simples pluma. Só então, pude ver-lhe de perto o rosto, que me era tão familiar em caneta nanquim.

Mostrou-me um espelho que segurava na outra mão. Nada mais quieto; nenhuma contorção violenta, nenhuma expressão de ódio ou ferocidade; a feição única, geral, completa, era a da impassibilidade egoísta, a da eterna surdez, a da vontade imóvel. Raivas, se as tinha, ficavam encerradas no coração. Ao mesmo tempo, em meu rosto de expressão glacial, havia um ar de juventude, mescla de força e viço.

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