- Alô?! Alô?! É o Adisle?
- ...
- O Adile? Técnico do Galo? É a Quiméria, meu fio.
- ...
- Isso, Dona Quiméria.
- ...
- Isso memo que eu falei. Aguirre. O que que eu
falei? Adilio. Isso. Aguirre.
- ...
- Adilio, tô ligando pr’ocê pra ti lembra que nós tamu
no Brasil e aqui quem manda é o arroiz co’fejão. Tá ovino? Arroiz co’fejão.
- ...
- Num tá entendeno? Vô ti explica. Nós gostamu,
Adile, é de arroiz co’fejão, que é um prato simples, mas muito bão. Nós comemu
uma feijoada as veiz, uma dobradinha, um pé-diporco, mas o de todo o dia é arroiz
co’fejão. Ele é bão, hoje num tá barato,
mas é o que nós gostamu, deixa a gente
cheio e dá força pra trabaiá. Intendeu?
- ...
- Intão, quando o Galo fô entrá em campo hoje,
Adilio, faz um arroiz co’fejão e num inventa: iscala o time certinho, sem querê
misturá catraca de canhão co’ conhaque de alcatrão. O povo atleticano sabe o
time que tem que jogá e num tá aguentado s’as bizarria.
- ...
- O esqueleto do Galo, Adile, tem que tê o
abençoado do Vito, o Léo Silva, o General no meio, o Carioca do lado dele, o
Douglas de um lado e o Marcorrocha do outro, o Urso no meio e o Pratto na
frente. Por falar nele, ocê sabe por que que todo mundo gosta do Pratto? Porque
ele sabe fazê o arroiz co’fejão, Adisle. Ele num inventa.
- ...
- 8 é um número mágico, bobão, e o time num tá
incompleto não, Adilio. Só tem oito, porque o Luan tá machucado (Eta! Tá fazeno
uma falta danada!), o Dato tá machucado (otro que tá fazendo muirta farta) e o
Robin veio, ma’ num trouxe a bicicreta dele. Tá pedalando poco e, quando
pedala, num disenvolve.
- ...
- Aguiro, quando ocê chegô no Brasil, nós já jogava
futebol há muitos ano. Mió: quando ocê nasceu, nós já jogava. Intão, num acha
que ocê sabe dimais não, porque isso é mentira. A cigana que ti falô isso
recebeu pra ti conta essa história, ela num falô digraça. Ocê é um minino
esforçado, ma’ num é hora de inventá. Faz o simples, faz o arroiz co’fejão.
- ...
- Ocê cunhece o Rei?
- ...
- Esse tamém é, ma’ tô falano do Galo: o Reinaldo.
Ocê viu ele jogá? Nem na televisão? Vô ti conta intão pr’ocê num isquecê: quem
via ele jogá ficava se perguntando porque todo mundo num era igualinho ele. Era
simples dimais, Adilio. Parecia que futebol era uma coisa tão boba de tão
simples que ele fazia. Ma’ isso, Adislio, era purque ele era foradissérie,
craque. Ele num precisava de cigana pra ovi isso.
- ...
- Pega esse exemplo, intão, é faz quinem. Simples,
meu fio. Simples. Prepara um arroiz co’fejão hoje bem mineiro no primeiro
tempo, dispois ocê bota um cadinho de farinha, segura isso nos quarenta e
cinco. No segundo tempo, estrala um ovo, fritinho, disco-voador memo, dispois
refoga uma couve com calma e fecha com a linguiça. Desse jeito.
- ...
- Num precisa inventá a roda, Adislio, ela já foi
inventada. O Levi, que tava antes d’ocê, é um minino bão, gosto dele, ma’ ele
tamém gostava de inventá, dava sorte de veiz em quando, ma’ a sorte gosta de
viajá e tem hora que ela num vorta. Intão, se ocê num inventá, a chance de dá
certo é mto maió, porque arroiz co’fejão num erra.
- ...
- Dumingo, Aguisrre, ocê já inventô dimais e acabô
entregano o oro pro’s bandido. Já tem gente chamanu ocê de tapir. É, tapir.
- ...
- Bão... eu num ia querê esse nome pra mim... Se é
ofensive? Não, claro que não... Dependi de como ocê vê a natureza. Má num
preocupa com isso hoje, não, Aguire, pensa só no jogo e na simplicidade. Se ocê
num agarrá, Aguirre, o time vai fazê a parte dele. A torcida sabe disso.
Arroiz co'feijão!!! Disciplina, força, ataque e gol!!!!
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