Nesse momento, uma ideia rasga sua mente e invade
seu coração de forma incontinenti.
- Levanta, Tião! Saia desse chão frio. O que nos
faz humanos é a palavra, e não há bestas no mundo que enfrentem nossas letras.
Um leve tremor sacode a casa.
- Venha, Tião! Levanta daí porque um novo dia vai
começar! – Profere Xota com energia e determinação. – Aquele Tião, feiticeiro,
conhecido por todos como Tião Canjerê, morreu ontem e há de buscar seu descanso
eterno. Aqui, agora, nasce um novo Sebastião, que até então dormia e que foi
desperto, que cria, mas não admitia, que mastigava, mas não se alimentava, que
existia, mas não vivia!
Tião, no chão, com as mãos nos ouvidos, se contorce
selvagemente. Uma onda de guinchos demoníacos se ouve e, enfim, as velas
crepitam. Xota transpira de forma caudalosa, e sua voz cresce à medida que a
casa treme de pavor.
- Sebastião, sua vida será curta nesta terra.
Assim como um punhado de grãos de areia não faz um deserto, um punhado de
bestas não faz a danação. A graça de Deus é um dom, que pode ser recebido por
qualquer homem, mesmo que seja um pecador, basta que ele se arrependa e tenha
fé.
Uma bilha de barro, até então invisível, surge arremessada
do meio da noite e atinge fortemente o rosto do padre. Xota vai ao chão,
encharcado pela água, ferido pelo forte impacto e com o supercílio cortado, no
qual uma trilha de sangue escorre pelo olho em direção à boca. Tonto, numa
noite vermelha, se esforça para levantar, passa o braço pelo rosto para limpar
o sangue e busca forças para concluir seu objetivo.
- Sebastião, levanta daí! Me dê sua mão. O Senhor
espera por você, e esse caminho é longo. – Estica a mão para Tião, segura a mão
dele e, com uma força assombrosa, puxa aquele gigante para cima. Ao vê-lo de
pé, ainda que vacilante, Xota grita bestialmente:
- Nesta casa, só há um Deus! Nesta morada –
batendo a mão no peito de Tião –, só há uma vida! Para vocês, que esperam ser
uma legião, todos os porcos serão pouco! Louvado seja Nosso Senhor Jesus
Cristo!
A casa emudece instantaneamente e, lá de fora, o
gemido dos porcos enche os ares. Ainda que porcos se atirem de um precipício, não
há som mais aterrorizante do que o proveniente da pocilga. Os animais estão loucamente
barulhentos, transtornados, e não demora muito para que se ouça o estalar do
cercado que os prende e o galopar infernal daquelas bestas. Um rastro sonoro de
destruição é ouvido à medida que aquele tropel se afasta da casa, e a noite
torna, cautelosamente, a ser negra e muda.
***
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