terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Um estranho caso - parte VIII

Nesse momento, uma ideia rasga sua mente e invade seu coração de forma incontinenti.
- Levanta, Tião! Saia desse chão frio. O que nos faz humanos é a palavra, e não há bestas no mundo que enfrentem nossas letras.
Um leve tremor sacode a casa.
- Venha, Tião! Levanta daí porque um novo dia vai começar! – Profere Xota com energia e determinação. – Aquele Tião, feiticeiro, conhecido por todos como Tião Canjerê, morreu ontem e há de buscar seu descanso eterno. Aqui, agora, nasce um novo Sebastião, que até então dormia e que foi desperto, que cria, mas não admitia, que mastigava, mas não se alimentava, que existia, mas não vivia!
Tião, no chão, com as mãos nos ouvidos, se contorce selvagemente. Uma onda de guinchos demoníacos se ouve e, enfim, as velas crepitam. Xota transpira de forma caudalosa, e sua voz cresce à medida que a casa treme de pavor.
- Sebastião, sua vida será curta nesta terra. Assim como um punhado de grãos de areia não faz um deserto, um punhado de bestas não faz a danação. A graça de Deus é um dom, que pode ser recebido por qualquer homem, mesmo que seja um pecador, basta que ele se arrependa e tenha fé.
Uma bilha de barro, até então invisível, surge arremessada do meio da noite e atinge fortemente o rosto do padre. Xota vai ao chão, encharcado pela água, ferido pelo forte impacto e com o supercílio cortado, no qual uma trilha de sangue escorre pelo olho em direção à boca. Tonto, numa noite vermelha, se esforça para levantar, passa o braço pelo rosto para limpar o sangue e busca forças para concluir seu objetivo.
- Sebastião, levanta daí! Me dê sua mão. O Senhor espera por você, e esse caminho é longo. – Estica a mão para Tião, segura a mão dele e, com uma força assombrosa, puxa aquele gigante para cima. Ao vê-lo de pé, ainda que vacilante, Xota grita bestialmente:
- Nesta casa, só há um Deus! Nesta morada – batendo a mão no peito de Tião –, só há uma vida! Para vocês, que esperam ser uma legião, todos os porcos serão pouco! Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
A casa emudece instantaneamente e, lá de fora, o gemido dos porcos enche os ares. Ainda que porcos se atirem de um precipício, não há som mais aterrorizante do que o proveniente da pocilga. Os animais estão loucamente barulhentos, transtornados, e não demora muito para que se ouça o estalar do cercado que os prende e o galopar infernal daquelas bestas. Um rastro sonoro de destruição é ouvido à medida que aquele tropel se afasta da casa, e a noite torna, cautelosamente, a ser negra e muda.
***

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