sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Um estranho caso - parte IV

Sobem em direção ao alto do Rosário em silêncio sepulcral. Ao passarem pela igreja, fazem o sinal de cruz, e Xota puxa conversa:
- Quincas, você é o que do Tião?
- Nada, seu padre.
- Você o conhece de onde?
- Do terreiro.
- Que terreiro, menino?
Quando percebeu, Quincas já havia falado.
- É... Não, seu padre... É do terreiro da... É...
- Você também é feiticeiro, menino?
- Não, seu padre. Não, senhor.
- Quando você saiu, ele já tinha morrido?
- Não, senhor.
- Não?
- Não, seu padre. Quer dizer... mais ou menos...
- Como mais ou menos, menino? Ninguém morre mais ou menos!
- Num sei, seu padre. Eu tava com muito medo. Num vi direito.
A irritação do padre só cresce, pois sabe e sente que o menino não relata toda a história.
Completam mais alguns longos minutos em silêncio até encontrarem algumas casas perdidas no meio do nada.
- É aquela ali, seu padre.
- Então, vamos.
- Eu não, seu padre.
- Por que não, menino?
- Tô com medo. Muito medo.
- Medo de uma pessoa morta, menino?
- De morto eu não tenho medo, seu padre. Só de vivo – e corre loucamente para o meio da escuridão.

***

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