quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Um estranho caso - parte III

Quincas balança a cabeça afirmativamente sem dizer uma palavra. Pe. Belchior conclui que o pavor do menino não permite uma resposta precisa e, pedindo que o garoto aguardasse um minuto, se dirige ao quarto. Nas longas tábuas que rangem sob seus pés, encontra-se com o pai:
- O que foi, Xota[1]?
- Nada, meu pai. Um pobre coitado que veio pedir a palavra de Deus como salvação na hora derradeira.
- A essa hora?
- Não há hora para morrer, não é mesmo?
- É verdade, meu filho. Tem razão. Mas você não é pároco, por que vieram procurá-lo?
- Acredito que todas as coisas estão na mão de Deus, e Ele sabe o que faz.
O pai avalia a força daquelas palavras e diz:
- Que Deus o abençoe, Xota. Proteja-se do frio e não atravesse a noite sem necessidade.
- Obrigado. Sua bênção.
- Que Deus te abençoe, meu filho.
Pe. Belchior não está firme em sua convicção de atender àquele chamado, mesmo que Rita esteja envolvida, mas a conversa com seu pai sela sua partida. Vai até o quarto, apronta-se, recolhe os objetos necessários e o paramento, ajeita o barrete sobre a cabeça, o guarda-chuva sobre o braço e, quando volta à sala, ouve a voz da mãe:
- Xota, você já fez a barba?
- O que, minha mãe?
- A barba, meu filho. Você já fez?
- Ainda é noite alta.
Queta varre com os olhos o ambiente pouco iluminado, busca o rosto do filho e diz:
- Ah, sim. É verdade. Você está certo, meu filho. – Aproxima-se dele, passa a mão por seu rosto, beija-o e, sem que Xota perceba, coloca algo no bolso dele.
- Obrigado – agradece à mãe e segue para a sala.
Henriqueta observa atentamente o caminho do filho.
 - Vamos, Quincas! Vamos descobrir o que nos espera. Que Deus nos abençoe.
Belchior, o pai do padre e que repetira o nome no filho, observa Xota saindo sozinho da casa e sente-se estranho, pois ouvira vozes na sala. Caminha até a porta, abre uma mínima fresta e observa, ao longe, que o filho anda sozinho pela rua.
Ao voltar para o quarto, ouve de sua esposa:
- O Xota não devia ter ido só.
***




[1] O nome Belchior, no século XIX, formava um diminutivo carinhoso como “Belchiorzinho”, “Belchotinha” e, por redução, o “Xota”. A palavra xoxota, considerada de origem banta, não deveria ser comum como o é em nossos dias, logo a utilização da alcunha Xota não devia causar estranhamento, mesmo em um religioso.

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