Quincas balança a cabeça afirmativamente sem dizer
uma palavra. Pe. Belchior conclui que o pavor do menino não permite uma resposta
precisa e, pedindo que o garoto aguardasse um minuto, se dirige ao quarto. Nas
longas tábuas que rangem sob seus pés, encontra-se com o pai:
- O que foi, Xota[1]?
- Nada, meu pai. Um pobre coitado que veio pedir a
palavra de Deus como salvação na hora derradeira.
- A essa hora?
- Não há hora para morrer, não é mesmo?
- É verdade, meu filho. Tem razão. Mas você não é
pároco, por que vieram procurá-lo?
- Acredito que todas as coisas estão na mão de
Deus, e Ele sabe o que faz.
O pai avalia a força daquelas palavras e diz:
- Que Deus o abençoe, Xota. Proteja-se do frio e
não atravesse a noite sem necessidade.
- Obrigado. Sua bênção.
- Que Deus te abençoe, meu filho.
Pe. Belchior não está firme em sua convicção de
atender àquele chamado, mesmo que Rita esteja envolvida, mas a conversa com seu
pai sela sua partida. Vai até o quarto, apronta-se, recolhe os objetos
necessários e o paramento, ajeita o barrete sobre a cabeça, o guarda-chuva
sobre o braço e, quando volta à sala, ouve a voz da mãe:
- Xota, você já fez a barba?
- O que, minha mãe?
- A barba, meu filho. Você já fez?
- Ainda é noite alta.
Queta varre com os olhos o ambiente pouco
iluminado, busca o rosto do filho e diz:
- Ah, sim. É verdade. Você está certo, meu filho.
– Aproxima-se dele, passa a mão por seu rosto, beija-o e, sem que Xota perceba,
coloca algo no bolso dele.
- Obrigado – agradece à mãe e segue para a sala.
Henriqueta observa atentamente o caminho do filho.
- Vamos,
Quincas! Vamos descobrir o que nos espera. Que Deus nos abençoe.
Belchior, o pai do padre e que repetira o nome no
filho, observa Xota saindo sozinho da casa e sente-se estranho, pois ouvira vozes
na sala. Caminha até a porta, abre uma mínima fresta e observa, ao longe, que o
filho anda sozinho pela rua.
Ao voltar para o quarto, ouve de sua esposa:
- O Xota não devia ter ido só.
***
[1] O nome Belchior, no século XIX, formava um
diminutivo carinhoso como “Belchiorzinho”, “Belchotinha” e, por redução, o
“Xota”. A palavra xoxota,
considerada de origem banta, não deveria ser comum como o é em nossos dias, logo
a utilização da alcunha Xota não
devia causar estranhamento, mesmo em um religioso.
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