- Padre, me ajuda! – Grunhe Tião.
- Deus do céu! – Grita Xota.
- Padre, me ajuda! Não me deixa assim!
Xota, coberto de horror e pânico, tenta se
desvencilhar daquela criatura agora reanimada, mas, quanto mais se debate, mais
Tião Canjerê aperta-lhe o braço. Na tentativa de Xota se distanciar da mesa, o
ex-defunto se desequilibra e vai ao chão, ainda firme no pulso do padre.
- Que brincadeira dos infernos é essa, Tião? Me
solta!
- Padre, me ajuda. Eu não posso ficar assim.
Um cheiro fétido toma conta da sala e nauseia Xota,
que, encharcado de suor, nos limites de sua força, usa fortemente os pés para
se afastar da criatura. As têmporas, inundadas de medo, tingem-se de branco,
num envelhecimento que engole dias, meses e anos em fração de segundos. Livre
de Tião e tentando se manter em pé, contorna a mesa, deixando-a entre eles.
Enquanto Tião levanta, Xota percebe que o homem
está completamente nu, em pelo, e parece ainda mais infernal agora, com manchas
multicores que tomam aquele corpo obeso.
- Fique longe de mim! - Grita energicamente o
padre.
Tião Canjerê para e observa o padre por longos
segundos. Em seguida, se dirige a uma das velas e coloca a mão na chama. O
padre olha horrorizado aquele flagelo, sem a menor contração de dor por parte
de Tião.
- Que feitiçaria é essa, Tião? – Grita o padre. –
Meus Deus, me ajuda! Não me abandone!
- Padre, me ajuda.
- Que brincadeira é essa, Tião? Se você não está
morto, por que me chamaram aqui?
Tião não responde.
- Responda, Tião! Que brincadeira de mau-gosto é
essa?
A cada não resposta, o pavor se avoluma na alma de
Xota, e as preces parecem palavras jogadas ao vento. Toda aquela confusão e nem
uma viva alma aparece na cozinha, do mesmo modo as velas estão mudas, sem um
estalo ou leve crepitar. Esse quadro pinta uma imagem mortal e demoníaca na
mente de Xota, que, já sem saber o que fazer ou como enfrentar aquele demônio,
sente um objeto em seu bolso (aquele colocado pela mãe) e leva instintivamente
a mão até ele. É uma navalha.
Nesse momento, uma explosão de cólera surge dentro
dele e, com a navalha em mãos, ruma em direção a Canjerê:
- Ou você me responde, demônio, ou eu mesmo te
mato!
- É disso que preciso, seu padre. – Responde
humildemente Tião. – Morrer!
***
Nenhum comentário:
Postar um comentário