A resposta foi tão incisiva e dilacerante, que
interrompe bruscamente o arrebatamento de Xota. Os dois homens param à média
distância e se olham.
- Padre, me ajuda a morrer!
Xota cambaleia para trás e se apoia em uma das
paredes.
- Me ajuda, padre! Não me deixa assim!
Encostado na parede, um brilho de lucidez acende
em Xota e algumas palavras se mostram:
- Tião... pelo amor de Deus... que feitiçaria é
essa?
- Padre, eu quero morrer.
Xota precisa ensaiar algumas vezes para que as
palavras saiam naquele momento.
- Tião... Você não tem pulsação, não está
respirando e o fogo não queima você... Você está m... mor... morto... Tião.
- Eu sei, padre. Eu sei que eu já não pertenço
mais aos vivos, mas eles não me deixam entrar no mundo dos mortos.
Uma onda de horror anuncia as palavras trêmulas do
padre:
- E-eles... q-quem... Tião?
- Eles, padre. – E gira o dedo pela cozinha
apontando os quatros cantos. Nesse momento, os sons mais bestiais são ouvidos:
gemidos, zumbidos, urros, guinchos, rosnados, sons humanos em diferentes
línguas, ofensas, risos, gargalhadas satânicas e todo tipo de som que faria
tremer qualquer rocha da terra.
Todos os pelos de Xota se levantam e um calafrio
polar comprime sua espinha. O rosto de Tião se contorce de dor, enquanto as
mãos tampam os ouvidos, tentando, inutilmente, se proteger daquela canção
nefasta.
- Me ajuda a passar, seu padre! Pede a Deus por
mim!
Uma risada histérica e coletiva é ouvida nesse
momento. Tião cai de joelhos, tampando loucamente os ouvidos.
Xota, atônito, tenta organizar o pensamento para
fazer alguma coisa, mas tudo aquilo é diferente de mais para ele. Anos de
seminário e estudo, dias após dias de oração e reflexão, momentos vários de
penitência... nada, naquele momento, faz sentido. Que fantástico mundo é aquele
em que se encontra e que nenhum livro, professor ou monsenhor mencionou, mas que
é extremamente real e palpável? A ciência explica esse fenômeno bárbaro? Como
aquilo terminará? Por que naquele momento, justamente naquele momento, está sozinho,
desacompanhado?
Lembra-se das Ritas – da Pemba e da Santa – e uma
gota de luz nasce em sua mente. Nas trevas da alma, percebe que aquele homem
caído no chão precisa de sua ajuda. Com a mente desgovernada, as possibilidades
vão surgindo e sendo descartadas uma a uma: extrema unção (já está morto),
exorcismo (não é possessão), unção dos enfermos (não é doença), penitência (não
é cristão).
***
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