segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Um estranho caso - parte VII

A resposta foi tão incisiva e dilacerante, que interrompe bruscamente o arrebatamento de Xota. Os dois homens param à média distância e se olham.
- Padre, me ajuda a morrer!
Xota cambaleia para trás e se apoia em uma das paredes.
- Me ajuda, padre! Não me deixa assim!
Encostado na parede, um brilho de lucidez acende em Xota e algumas palavras se mostram:
- Tião... pelo amor de Deus... que feitiçaria é essa?
- Padre, eu quero morrer.
Xota precisa ensaiar algumas vezes para que as palavras saiam naquele momento.
- Tião... Você não tem pulsação, não está respirando e o fogo não queima você... Você está m... mor... morto... Tião.
- Eu sei, padre. Eu sei que eu já não pertenço mais aos vivos, mas eles não me deixam entrar no mundo dos mortos.
Uma onda de horror anuncia as palavras trêmulas do padre:
- E-eles... q-quem... Tião?
- Eles, padre. – E gira o dedo pela cozinha apontando os quatros cantos. Nesse momento, os sons mais bestiais são ouvidos: gemidos, zumbidos, urros, guinchos, rosnados, sons humanos em diferentes línguas, ofensas, risos, gargalhadas satânicas e todo tipo de som que faria tremer qualquer rocha da terra.
Todos os pelos de Xota se levantam e um calafrio polar comprime sua espinha. O rosto de Tião se contorce de dor, enquanto as mãos tampam os ouvidos, tentando, inutilmente, se proteger daquela canção nefasta.
- Me ajuda a passar, seu padre! Pede a Deus por mim!
Uma risada histérica e coletiva é ouvida nesse momento. Tião cai de joelhos, tampando loucamente os ouvidos.
Xota, atônito, tenta organizar o pensamento para fazer alguma coisa, mas tudo aquilo é diferente de mais para ele. Anos de seminário e estudo, dias após dias de oração e reflexão, momentos vários de penitência... nada, naquele momento, faz sentido. Que fantástico mundo é aquele em que se encontra e que nenhum livro, professor ou monsenhor mencionou, mas que é extremamente real e palpável? A ciência explica esse fenômeno bárbaro? Como aquilo terminará? Por que naquele momento, justamente naquele momento, está sozinho, desacompanhado?
Lembra-se das Ritas – da Pemba e da Santa – e uma gota de luz nasce em sua mente. Nas trevas da alma, percebe que aquele homem caído no chão precisa de sua ajuda. Com a mente desgovernada, as possibilidades vão surgindo e sendo descartadas uma a uma: extrema unção (já está morto), exorcismo (não é possessão), unção dos enfermos (não é doença), penitência (não é cristão).

***

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