Em pé, Pe. Xota segura a mão de Tião e, ofegante,
sente as pernas tremerem. Respira aliviado pela paz que reina naquela cozinha,
quando se lembra da condição de Tião. Busca alguma palavra na boca seca e, com
custo, encontra as seguintes:
- Tião... Quer dizer, Sebastião... É hora dos
mundos se separarem, pois ainda não é o momento dos mortos se levantarem. É
hora de desligarmos na terra o que já foi desligado no céu e pedirmos que a
ligação seja refeita segundo a vontade do Pai.
- Padre, quero tomar uma caneca d’água antes de
ir. Minha estrada é longa e pode ser que não consiga nem molhar a ponta da
língua até lá.
Xota balança afirmativamente a cabeça e larga a
mão de Tião. O ex-feiticeiro caminha pela cozinha até a bilha, mas descobre que
ela não está mais no local de sempre. Olha para Xota e espera alguma ajuda.
O padre se lembra de que fora atingido pela bilha
e que essa se quebrara em inúmeros pedaços. Não há mais bilha, nem água. Olhando
ao redor, percebe um brilho no chão, pequeno e oscilante, e se dá conta de que é
o reflexo da vela em sua navalha. Caminha para apanhá-la, mas, antes que o faça,
Tião se lança a sua frente e recolhe a arma.
Um sentimento de horror percorre seu corpo, e ele
vagarosamente caminha para trás, buscando se afastar de Tião. Não sabe o que se
passa na cabeça daquele gigante, morto em um mundo, vivo em outro, preso em uma
realidade que não consegue explicar e, agora, armado.
Tião segura a navalha aberta com extremo zelo,
enquanto os segundos passam minutamente. Num átimo eterno, caminha em direção ao
padre com a navalha em punho. Xota estremece e tenta organizar o pensamento
para uma resposta ao que acontecerá em breve, embora o pavor não permita que as
ideias se encadeiem.
Junto ao padre, em movimentos bem lentos, Tião
estica o braço em que navalha está segura.
O padre recua.
Tião leva a arma à boca. Uma língua bovina se
mostra e toca uma solitária gota de água que insiste em deslizar no cabo oleoso
da navalha. Há uma expressão facial de êxtase, a navalha é fechada e oferecida
gentilmente ao padre, que a recolhe com a mão trêmula. Tião se vira, caminha
até a mesa e se deita sobre ela, da mesma forma em que se encontrava quando
Xota chegou.
- Obrigado, Padre. Agradeça também a sua mãe por
mim.
Não há mais nenhum movimento de Tião, e Xota queda-se
esgotado por aquela história tão singular. Os olhos pesam e lhe trazem um sono
sem sonhos.
***
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