Enfim Xota descobrirá que história é essa e o
que ela tem de tão extraordinário. Com passos curtos, mas decididos, ruma para
a casa que tem a porta aberta. Ouve, nesse momento, o ruído de porcos e sente o
cheiro da pocilga, mesmo sem identificar onde estão. Para na entrada da casa, faz
uma breve oração, aperta fortemente o terço com as mãos e segue.
Ao transpor aquele umbral, diz em voz baixa:
- Que a paz do Senhor esteja nesta casa!
Um estrondo enorme responde àquela saudação e faz
Xota parar. O padre não entende o que pode ter causado tamanho barulho àquela
hora, mas está certo de que os vizinhos não passarão impunemente àquele ruído.
Aperta o terço, engole a saliva que parara em sua
boca durante a explosão e, passando por aquele primeiro cômodo, uma espécie de
sala com apenas um tamborete em um dos cantos, chega à cozinha. Nela, deitado
sobre uma mesa, cercado por quatro velas acesas, um corpo enorme coberto por um
pano branco.
Conheceu Tião de vista, encontrou-se com ele
muitas vezes pela rua ou em alguma visita para os lados do Rosário, mas não se
lembra de ele ser tão grande, tão gordo. Faz o nome do Pai e se aproxima do corpo,
suspendendo o tecido na região que acredita estar a cabeça. Realmente. Ela está
enorme, inchada, com longos hematomas sob os olhos, os lábios rijos, dando a
nítida sensação que os dentes estão cerrados, a cabeça muito próxima do tronco,
criando o efeito de não possuir pescoço, além da pele muito manchada na região
dos ombros.
A pele está com um tom diferente, algo puxado para
o verde, e tem um aspecto áspero, não parecendo em nada humana. Volta o tecido
ao lugar e se dirige ao outro extremo da mesa, levantando aquela espécie de
lençol e observando os pés, que estão incrivelmente inchados. Nunca havia visto
uma perna naquele estado, tão taturanada. Cobre os pés do morto e corre os
olhos pelo ambiente aguçando os ouvidos à busca de algum sinal de vida naquela
casa.
Nada.
Caminha até a outra porta da cozinha e tem a certeza
de que está só, de que todos evitam velar o corpo daquele feiticeiro,
certamente com medo de encantamentos pós-morte que circulam entre as fantasias
de pessoas sem fé. Vira-se, faz o sinal de cruz e resolve que acabará com
aquilo logo, o que muito trará paz a seu coração e conforto a seu corpo ao
reencontrar sua casa e o fim da madrugada.
Enquanto se aproxima, imagina como aquele homem tenha
morrido, pois são notórias a dor e a lamúria de quem padece de nó-nas-tripas.
Lembra-se de seu tio-avô Ezequiel, médico, e do tratado escrito por ele na
Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro sobre o rigor mortis. Pe. Xota havia lido esse texto há pouco tempo e,
movido por um misto de ciência e curiosidade, resolve descobrir há quanto
tempo, aproximadamente, aquele homem havia morrido.
Próximo ao meio da mesa, onde estão as mãos do defunto, levanta o pano e segura o pulso esquerdo do, agora, ex-feiticeiro. Nenhuma pulsação, nenhum calor, ao contrário, um toque viscoso em uma couraça que um dia foi pele. Ainda segurando o pulso do morto, ouve um ruído na sala próxima e, antes que possa se virar, sente uma garra prender-lhe o pulso.
Próximo ao meio da mesa, onde estão as mãos do defunto, levanta o pano e segura o pulso esquerdo do, agora, ex-feiticeiro. Nenhuma pulsação, nenhum calor, ao contrário, um toque viscoso em uma couraça que um dia foi pele. Ainda segurando o pulso do morto, ouve um ruído na sala próxima e, antes que possa se virar, sente uma garra prender-lhe o pulso.
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